OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – A Ericeira e a 8ª onda

A Ericeira e a 8ª onda

Vivemos num concelho limítrofe de uma capital europeia que está na moda. Da sua mundanidade recolhemos migalhas e perdemos grandes fatias daquilo que nos faz falta. Mas é assim. Alguém tem de viver nas franjas dos sucessos turísticos e imobiliários e a nós munícipes do concelho de Mafra, cabe-nos aproveitar os salpicos que formos capazes de reter.

Há uns anos a esta parte a Ericeira conseguiu conquistar um lugar de topo. Em 2011 viu as suas 7 ondas serem qualificadas como Reserva Mundial de Surf, galardão que na altura só tinha sido atribuído a Malibu na Califórnia. Adivinhava-se por isso uma oitava onda, esta não de água marinha mas de desenvolvimento económico que inundaria todo o concelho. Em 2016 existiam cerca de 25 escolas de surf licenciadas, uma dezena de empresas de ‘shapers’, inúmeras lojas de desportos de onda, várias centenas de alojamentos locais tendo daí pra cá crescido o número das grandes superfícies comercias e das cadeias de franchising.

Tudo isto parece uma história de sonho mas nem tudo o que luz é ouro. Os escassos 4 Km de costa produziram ouro sim mas apenas para a pequena vila piscatória e infelizmente não para toda a gente. Digo isto não porque conteste o sucesso destes números mas sim porque não vejo um único sinal de ‘já chega’ nesta vertigem de ‘desenvolvimento’ e na forma como ele está a ser conseguido.

Porquê? Porque sou contra o ‘branding’ (imagem de marca) e contra a ideia de confundir uma vila com uma marca. E sou contra porque uma vila são pessoas, no caso ericeirenses com identidade própria, uns que lá nasceram e outros que a escolheram para viver. O ‘branding’ está permitir a aceitação da lógica do mercado imobiliário e da produção de valor especulativo como motor do desenvolvimento da Ericeira. Para além de outros males, este tipo de desenvolvimento quer se queira quer não, desembocará na extinção da multidão ericeirense e da sua presença anónima que é ainda o sangue da Vila. Este é o ponto de não retorno visto que a ele se cola um outro fenómeno que todos conhecemos de sobra, até porque para muitos de nós já foi uma experiência vivida: a gentrificação da Vila.

O que é que isto quer dizer? Gentrificação é o equivalente português de ‘gentrification’. ‘Gentry’ significa fidalgo e por isso ‘gentrification’ será afidalgamento. A gentrificação como fenómeno advém da referida especulação imobiliária. Assim, na Vila da Ericeira bem como em toda a linha de costa, os tais 4 Km mais coisa menos coisa, o ‘branding’ foi fazendo crescer o valor do imobiliário. Isto parece bom mas é um crescimento perverso porque vai esvaziando os imóveis mais valiosos primeiro e os restantes depois, dos seus moradores originais, dando lugar a uma classe média alta. O aumento da especulação vai gerando a incapacidade financeira destes novos proprietários de os manterem e a sua venda a cadeias internacionais de imobiliário é um final certo. Nessa altura a Vila da Ericeira não terá ericeirenses porque foram forçados a abandoná-la. Viverão nas aldeias vizinhas descendo à vila para prestarem os seus serviços.

Levará muito tempo para que isto aconteça? Penso que não. Com a força com que se manobra o fole da forja, e tendo em atenção fenómenos semelhantes aos do Casal Carido, este cenário está já demasiado perto. Quem não concorde que tente alugar uma casa na Ericeira e verá espantado, o que lhe têm para oferecer as imobiliárias que por lá pululam.

A propósito de tudo isto deixo-vos com uma citação de uma arquiteta que muito admiro, Ana Jara. Diz ela: “Nunca outra época produziu tantas ruinas. Porventura 1755.” Pode parecer exagero mas ruinas não são só os restos das edificações, são no que se tornam os anónimos das multidões que habitam a Vila da Ericeira e que aos poucos, silenciosamente, vão desaparecendo das suas ruas.

 

Mafra, 6 de Fevereiro de 2018

Mário de Sousa

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