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Saúde Mental e Ocupacional | Catarina Ferreira e Maria João Avelino

 

Demência

 

O que é?

A palavra Demência deriva do latim “De” (sem)+”Mentia” (mente). É uma síndrome que foi descrita pela primeira vez em França, no século XVIII. Esquirol, psiquiatra do século XIX, descreve a síndrome como uma “Doença cerebral caracterizada por uma perda de sentidos, da inteligência e interesse”. Uma síndrome é um conjunto de sintomas e sinais que pode corresponder a diferentes doenças, logo, a síndrome demencial não é um diagnóstico de uma doença específica. Caracteriza-se, segundo a Classificação Internacional das Doenças, versão 10, como “uma síndrome causada por doença cerebral, habitualmente de natureza crónica e progressiva, na qual existem múltiplas perturbações nas funções corticais superiores, como a memória, pensamento, orientação, compreensão, cálculo, aprendizagem, linguagem e julgamento. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que actualmente há cerca de 50 milhões de pessoas que sofrem de Demência, número que se prevê que aumente cerca de 204% em 2050. É, portanto, uma situação médica com um importante impacto social e financeiro.

 

Quais os factores de risco e quais os factores protectores?

Existem factores de risco para Demência não modificáveis e modificáveis. Os primeiros dizem respeito à idade (mais avançada), ao género (maior risco de Doença de Alzheimer no sexo feminino; maior risco de demência vascular no sexo masculino) e à hereditariedade. Dentro dos factores de risco modificáveis, temos os factores cardiovasculares como a Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus, Dislipidémia, tabagismo e obesidade e os ambientais como o abuso de álcool. Pensa-se que a Depressão e traumatismos cranianos podem também predispor a Demência.

Como factores protectores temos a prática de exercício físico, uma dieta rica em antioxidantes, vitamina B6, B12 e ácido fólico e a existência de uma maior reserva cognitiva – quoficiente de inteligência, nível educacional, actividade cognitiva e interacção social.

 

Quais os tipos de Demência mais frequentes?

Existem vários tipos de Demências, dependendo das suas causas. Alguns tipos, como défices de algumas vitaminas, lesões estruturais do cérebro, alterações endócrinas, tratando as suas causas, são reversíveis; outros, como Doenças Degenerativas (Alzheimer, p.ex.) e Demência Vascular são irreversíveis. Dentro das Demências irreversíveis as mais frequentes são: Doença de Alzheimer, Demência Fronto-Temporal, Demência a Corpos de Lewy e Demência Vascular.

A Doença de Alzheimer é o tipo de Demência irreversível mais frequente, correspondendo a cerca de 50-60% de todos os casos. Ocorre habitualmente após os 60 anos de idade e atinge mais as mulheres. A sua evolução caracteriza-se por um início lento, de agravamento progressivo, em que os sintomas mais precoces são as alterações da memoria, especialmente a memória recente:  dificuldade em lembrar factos recentes, com repetição de memórias passadas. Com a progressão da doença vão surgindo alterações da linguagem (dificuldade em nomear objectos, por exemplo) e manifestações psiquiátricas como agitação, agressividade, ansiedade (geralmente mais notórios ao final da tarde) e alterações do sono e do apetite. Podem também surgir falsas crenças, por exemplo ideias de roubo. O indivíduo esquece-se do sítio onde guardou um objecto e desenvolve a convicção de que foi alguém que o roubou. Se houver um agravamento súbito das alterações psiquiátricas isso pode corresponder a uma doença física, como uma infecção ou desidratação.

A Demência a Corpos de Lewy é o 2º tipo de Demência degenerativa mais frequente. Ocorre habitualmente entre os 50 e 80 anos de idade e mais no género masculino. Os sintomas e sinais mais típicos são alterações motoras semelhantes às da Doença de Parkinson (como tremor e movimentos lentos), flutuação das alterações cognitivas e alucinações visuais que muitas vezes são imagens agradáveis para o indivíduo. Podem também surgir outras manifestações psiquiátricas como sintomas depressivos e ideias delirantes.

A Demência Frontotemporal  surge em idades mais precoces (50-60 anos), ocorre com a mesma frequência em ambos os géneros, havendo frequentemente história familiar. As suas manifestações são essencialmente alterações da personalidade, do comportamento e da linguagem. O individuo pode apresentar, por exemplo, desinibição sexual, impulsividade e negligência nos cuidados pessoais. As alterações da memória muito raramente surgem nos estádios iniciais.

A Demência Vascular, também muito frequente, surge habitualmente após os 65 anos de idade e é mais frequente nos homens. Está associada a factores de risco cardiovasculares, como a Hipertensão arterial, Diabetes Mellitus e Doença Coronária. Há vários tipos, de acordo com os vasos cerebrais que são afectados, o que determina a sua evolução e manifestações. No entanto, o seu aparecimento é mais abrupto do que na Doença de Alzheimer. Estes dois tipos de Demência, Vascular e de Alzheimer podem surgir concomitantemente e designa-se por Demência Mista.

 

Como é feito o diagnóstico?

Se algum familiar seu apresentar alguns dos sintomas acima referidos deverá falar com o seu médico assistente de Medicina Geral e Familiar. Este irá fazer uma história clínica, um exame físico (que pode incluir testes para avaliar as capacidades cognitivas) e irá pedir exames complementares de diagnóstico (análises e Tomografia Computorizada craniana) essencialmente para excluir causas reversíveis de Demência. Posteriormente, para a determinação mais específica da sua causa, poderá encaminhar para uma consulta de Neurologia ou de Psiquiatria.

 

Como é o tratamento?

O tratamento varia de acordo com a causa da Demência. Nos tipos descritos atrás, não há um tratamento que cure a doença, mas há medicamentos que atrasam a sua progressão e controlam alguns dos seus sintomas (como as manifestações psiquiátricas). Para além dos medicamentos, há outras estratégias de tratamento, como  a promoção de interacção social e estimulação cognitiva.

 

Catarina Ferreira (Médica Interna de Psiquiatria)
Maria João Avelino (Médica Psiquiatra e Coordenadora Clínica da Unidade Comunitária de Psiquiatria de Mafra – Espaço MESMO)

 

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