Crónicas de Jorge C Ferreira | Crónica dos dias tristes

Crónica dos dias tristes

Como cheiram a tristeza os dias da triste gente. Como deve ser triste só pensar no ter! Há gente que passeia vaidosa, como se fossem medalhas, as tristes figuras que fazem. Figuras que fazem sem se aperceber do ridículo em que caiem aos olhos dos que sabem pensar. Isso não os preocupa, mostram a sua ignorante vaidade e com um pouco de sorte ainda, um dia, serão comendadores.

A tristeza é uma dor interior, uma dor que não é física, uma coisa tão fina e intensa que nenhum bisturi consegue cortar. Podemos chamar o melhor cirurgião. Podemos ter acesso ao melhor bloco operatório do mundo. Nada a fazer. É coisa que não se cura assim. Qual é, então, o antídoto para matar a tristeza quando se instala, quando o corpo começa a ser corroído? Todos sabemos que não há remédios eficazes para estes estados. São precisos outros meios, outros modos de enfrentar a vida. A importância das palavras tolerância e compreensão têm aqui um valor muito importante.

Sofremos de tristeza por actos de que não temos culpa, coisas que nos acontecem e vimos acontecer. Terramotos que se abatem sobre nós, coisas que nós não procuramos. Coisas que nos caiem em cima e pesam. Um peso enorme que, por vezes, nos faz andar acabrunhados, de cabeça baixa e as lágrimas a aflorarem no corpo inteiro.

Há coisas que nos ultrapassam. Coisas passadas. Vivências e desventuras. Por vezes chegam-nos as palavras dos nossos mais antigos. O aperto de mão que selava um negócio indestrutível. A palavra de honra que se defendia até à morte. Hoje  estamos num tempo que num contrato feito com cuidado, pode aparecer um buraco, a tal vírgula, que o advogado sabe existir na lei e a litigância tem lugar. Isto acontece todos os dias e é triste. Torna, para muitos, cinzentos os dias ensolarados. Há coisas muito tristes. Há quem morra de tristeza. Há quem se enforque na mentira e se passeie impávido e sereno como um deus na terra. O pior que podemos fazer é fecharmo-nos em nós, como se vivêssemos numa concha, como se tivéssemos uma carapaça.

É triste a traição. Dói a todos, por vezes, até ao traidor. Mas há traições que são ignóbeis. Prometer uma coisa a alguém e não cumprir, seja em que circunstâncias for. Para isso não há perdão. Muitas vezes esta gente bate com a mão no peito e acredita em deus. Não sei que deus perdoará tal coisa. Mas eu não sei de nada, não me passeio por estes reinos do ter. Já vos falei demasiadas vezes disso. Tenho medo do dinheiro. Tenho medo do que o dinheiro faz às pessoas. Tenho receio de certos reinos. Não gosto de reizinhos. Não gosto de brasões. Fujo de tais intrujices com a maior velocidade que consigo atingir. Não entendo quando tais coisas vêm ter comigo.

Tristes são os dias em que temos de ter por perto aves de rapina, abutres, urubus, aves que enojam e que algumas vezes têm forma humana e se passeiam entre nós. Já vi viúvas negras a sério, já as vi passar perto de mim, nunca lhes toco. O seu peludo corpo causa-me náuseas. Gente triste que ronda vítimas indefesas. Corpos expostos em vidas desertas.

Vamos matar a tristeza!

«Olha que eu não gosto nada disto. Não gosto desta conversa.»

Voz de Isaurinda.

«Temos todos dias assim, dias desta escrita, desta maneira de falar. Sabes que escrevo sobre coisas, não obrigatoriamente sobre mim.»

Respondo.

«Podes dizer o que quiseres, mas eu conheço-te bem…»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Jan/2018(153)

 

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24 Thoughts to “Crónicas de Jorge C Ferreira | Crónica dos dias tristes”

  1. Tristezas, todos vivemos.
    Desilusões, vamos coleccionando.
    Dias cinzentos haverá sempre.
    O pior é o não retorno. A gente que desiste. Os que não aprenderam a ver o bom; os que deixaram de vislumbrar esperança. A debandada da esperança é como a debandada dos afectos: mata.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Vamos dar a volta à tristeza. Reagir à debandada. Vamos ser militantes dos afectos. Abraço

  2. Branca Maria Ruas

    Ao ler a tua crónica lembrei-me de um dia, numa manifestação em Lisboa, ter visto alguém com um cartaz que dizia: “É tão pobre que a única coisa que tem é dinheiro”.
    E, realmente, que triste deve ser a vida de quem tem apenas dinheiro!
    Mas também falas de outra tristeza. Daquela que dói por dentro. Penso que uma das maneiras de a matar é deixarmos de criar expectativas que envolvam os outros. Porque a desilusão magoa., a mentira fere e há silêncios que sufocam.
    Vamos envolver-nos do encanto que nos rodeia, vamos continuar a sonhar, a viver poeticamente a vida, vamos inundar-nos de beleza e matar a tristeza!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Olha minha amiga, o dinheiro é um resto do nada. Pode-se morrer de tristeza, mas também se pode ultrapassar o fim do tempo e acordar outro. Abraço.

  3. maria fernanda morais aires gonçalves

    É por isso que gosto de fazer a mala. Sempre penso: afinal eu conseguia viver só com isto. Nós sabemos que nobreza, clero e povo tudo vai para o mesmo sítio. Nasce-se morre-se de igual forma. Amar a vida e o próximo enquanto se anda por cá. Abraçar os amigos, tristeza inevitável com a maldade que vai por aí…Amanhã vou escrever um poema.Abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. Saltar a vida. Ignorar o que não interessa. Rasgar a falsidade. Matar a tristeza. Fico ansioso a esperar pelo teu poema. Abraço

  4. Maria da Conceição Martins

    É querido amigo. A tristeza calha a todos e não há às vezes remédio que a cure. Mas tal como diz podemos matá-la. Vamos matar a tristeza, principalmente aquela que não nos leva a lado nenhum …só ao desespero. Abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria da Conceição. Nunca desesperar. Nunca perder o tino. Saber vencer, caminhar. Abraço

  5. Isabel Soares

    Um texto delicioso sobre as várias tristezas. Sobre a vida no seu pior.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Sim muitas derivas de um mesmo estado. Dar cabo da tristeza o grande objectivo. Abraço

  6. Ana Pais

    Excelente abordagem de o Ter com as vaidades , exibicionismo , futilidades e vazios de algumas pessoas inerentes a essa condição social. O Ser simples, modesto, humano, afectuoso, para muitos não tem importância , ” não faz dinheiro , para que serve, dizem alguns” Muito triste mesmo. Noutro contexto , todos temos dias tristes, que dói a alma, como a falta de saúde, as catástrofes da natureza que nos apanham desprevenidos. Mas como diz o Mestre Jorge , “Vamos matar a tristeza” com um sorriso sempre. Gostei de o ler. Um abraço e que tenha um dia feliz !

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ana. Sim, a sua leitura é correcta. Há uma mistura de dois sentires. Tudo se vence. Vamos, mesmo, matar a tristeza. Abraço.

  7. Madalena Pereira

    Ai a tristeza, essa “dor interior… que nos faz andar de cabeça baixa e as lágrimas a aflorarem no corpo inteiro”. É isso mesmo Jorge! Há quem caminhe de olhos no chão…A esses eu digo: Olhem para o céu! É de lá que vem a ajuda para sacudir a tristeza e trazer a alegria; A Paz Interior. Vamos olhar o céu? Obrigada, meu amigo por mais uma crónica. Tenha um excelente dia. Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Isso, levantar a cabeça, dar a volta ao viver. Enxotar os tristes dias. Abraço.

  8. Idalina Pereira

    Há dias muito tristes e outos menos.
    A tristeza que vem de dentro, que dói.
    O melhor será pôr um sorriso ( ainda que triste) e afasta-la, sacudi-la.
    Gostei da crónica, apesar do tema.
    Um abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Idalina. Ser capaz de ultrapassar os tristes dias, de passar incólume pela “triste gente”. Seguir o nosso caminho de cabeça erguida. Abraço

  9. Cristina Ferreira

    “Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!! … “

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Tudo se vence. Basta uma vontade enorme. Abraço

  10. Célia M Cavaco

    Há por certo dias tristes,como há dias de ver a tristeza das figuras tristes que agouram e fazem ninho de tristeza em muitos corações que se tornam saltibancos em busca de eterna esperança.Como sempre um texto onde me revejo nos meus dias de tristeza por coisas tristes. Abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Sim, todos conhecemos estrs dias. As aves de mau agouro. Nós sabemos dos saltos da vida! Abraço

  11. Ivone Teles

    Olá amigo. Hoje uma Crónica sobre a tristeza do TER a querer matar o SER. Acredita que, como tu, acredito que só a tolerância e compreensão nos podem ajudar nessa tristeza. Como sou Republicana, também não gosto de Reis de sangue azul que se passeiam com a sua vaidade a provocar os que, tão ” gente ” como elas e eles, o têm vermelho de sangue e luta por valores maiores. Quando somos pessoas que já viveram bastante, vimos muitas coisas, do bom e do mal. E calha a Todos. Que ninguém se julgue imune. O mesmo “soro ” de vacina que julgam protegê-los, é que lhes irá mostrar que a palavra de alguém é o que de mais honroso há. Assim me ensinaram, assim procuro cumprir. Também tenho medo das aves de rapinas, do dito por não dito, A náusea da traição pode magoar-nos, mas não podemos deixar que nos vença. De cabeça erguida lutaremos pelos valores que fomos ganhando na Vida. O único ganho que vale a pena.

    Vamos matar a tristeza, amigo Jorge. Vamos na simplicidade doa nossos princípios.. Vou com a Isaurinda e o seu pano, limpar a traição, pó que pode destruir se o deixarmos atacar-nos. Limpos, sairemos para as ruas glorificar a vida honesta e justa e abraçar quem é amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Sim, vamos matar a tristeza. Conjecemos estes caminhos e sabemos do valor da honra. Seremos semprr vencedores de uma só palavra. Abraço

  12. Esmeralda Machado

    Gostei muito da sua crónica. A tristeza só quem a sente é que sabe avaliar, uma grande dor que não é compreendida pelos outros. Mas como diz o amigo Jorge “Vamos matar a tristeza”. Obrigada

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Esmeralda. É essa a solução. Sermos mais fortes que ela. Abraço.

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