Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (9º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

BENVINDA – Uma História de Emigração (9º. Episódio)

Chegou por fim o tempo de Berta deixar de chorar por via da zombaria das coleguinhas, e perceber que tinha um caminho para as fazer calar. Estudou afincadamente, sobressaiu aos olhos atentos de uma professora que lhe entendeu o esforço, lhe admirou as capacidades de aprendizagem, a protegeu sem que ela desse por isso. Terminou o ano com as segundas melhores notas da turma, e logo a teimosia de Berta a levou a informar os pais do seu desejo de, no ano seguinte, se matricular numa escola de elite, onde estrangeiros entravam, sim, mas só se se submetessem a uma prova de selecção e nela obtivessem notas altas, difíceis de conseguir, bem o sabia Berta. Desiludiram-na os pais, tu tem juízo, miúda, essa escola não é para ti, portuguesita e filha de gente pobre, ainda iam rir-se de nós.

Andava tristonha a rapariga, mas quando a viam a semicerrar os olhos, a olhar o alto, a cabeça de lado, como quem espreita um anjo escondido numa nuvem, era porque pensava, hei-de chegar lá, hei-de, e todo o seu corpito em flor vibrava de uma comoção desconhecida.

Quando Berta disse ao pai, com a voz a tremer e os olhos no chão, que o director da tal escola de ricos lhe queria falar, Bento nem queria acreditar, tu não me digas que arranjaste sarilho, eu racho-te, não pai, é só para o pai levar os papéis e eu poder fazer o exame, mas qual exame, tu dás comigo em doido, e depois num alvoroço, dá-me dali o boné, vou já, tu vais comigo, e resolve-se o caso, mais vergonhas é que não passo.

Foi a persistência inusitada de Berta, a pedir para ser recebida pelo director, a recusar um não, o senhor director está ocupado e não te pode receber, e a miúda, mal penteada e mal vestida, mas empertigada, a teimar, vá lá dizer-lhe que eu preciso muito de falar com ele, chamo-me Berta, Berte, em francês, sim, sou portuguesa, os meus pais são emigrantes e acrescentou, mas com papéis. Teimava, teimava, e dava mostras de não arredar pé dali, e o empregado já a perder a paciência, mas quem julgas tu que és, põe-te mas é a andar daqui para fora, e Berta a avançar um passo, dois passos, a servir-se duma força tão grande que ainda hoje não sabe donde ela lhe nasceu, e a voz dum homem que descia do andar de cima, o que é que se passa aqui, quem é essa miúda, o empregado a balbuciar, ela vai-se já embora, deve estar enganada, e ela a avançar mais um passo ainda, muito direita, a dizer, eu sou Berte e quero vir estudar nesta escola, levem-me por favor ao senhor director, o director sou eu, sobe, vamos falar. O empregado de olhos arregalados e Berta com o coração a bater de alegria, talvez a primeira grande alegria que a vida lhe ofereceu.

(continua)

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