Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (8º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

BENVINDA – Uma História de Emigração (8º. Episódio)

Só chegámos a Paris no dia seguinte à noitinha, os comboios não eram rápidos como os de agora, a canalha dormiu o tempo quase todo, a gente olhava para eles e nem queria acreditar que estávamos juntos. Dali em diante tudo ia ser melhor, era o que pensávamos. A gente tem que esperar que as coisas boas aconteçam, senão pode endoidecer, é o que lhe digo, e ficar como esse tontinho do Bicas que anda por aí aos berros e a tirar a roupa. Era melhor que tivesse também morrido quando perdeu a mulher no grande fogo que ateou no mato e levou palheiros e gado, as labaredas a treparem às árvores, uma coisa de meter medo. A mulher teimou em querer salvar as ovelhas, meteu-se pelo fogo que a pegou e não a largou mais. Uma desgraça, uma grande desgraça. Ficou assim sem tino, o Bicas, um pobre de Cristo que não faz mal a ninguém.

Das vidas das crianças do Portugal pobre e triste dos anos de chumbo, transplantadas para outro país, com outra gente, outros hábitos, outra língua, pela urgência de vida melhor que no seu país seria improvável, muito haverá por contar. Necessário será afastar cortinas de amor próprio que escondem o que nunca devia ter acontecido, o que se recusam a recordar, para que não volte, nunca mais. É preciso alguma ousadia, alguma crueldade mesmo, para afrontar esse esquecimento e fazê-lo emergir da bruma a que o votaram, para que a mágoa amaine, para que o futuro venha a explodir em novas luzes.

Benvinda não pode falar pela voz dos filhos, eles são outra gente que muitas vezes escapou às malhas da vigilância dos pais para se magoar em experiências, aventuras, numa aprendizagem dorida mas aliciante da cidade grande, trepidante, fértil e oferecida, tentadora e malvada para os que acolhe a contragosto. Benvinda não pode, não quer falar das horas em que Berta chorava porque as meninas na escola se riram do seu vestido costurado pela mãe, ridículo aos olhos delas que eram francesas e tinham mães que sabiam de modas.

 

(continua)

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