Entrevista | Júlio Lopes – Uma das figuras típicas da Ericeira [3ª parte]

É autarca desde 1982, como é que nasce a militância partidária? Que Balanço é que faz da sua actividade politica aqui no concelho?

No caso da Junta de freguesia relacionei-me muito bem com as pessoas, mas tive sempre um contra. É que o candidato à junta não era uma pessoa, uma personalidade que as pessoas vissem bem. Eu fiz dois mandatos com ele. Nós não ganhámos, o PSD é que perdeu, isto tem de ser dito como deve ser. O Sr Mário Cravina, um individuo que era de Mafra, um individuo austero, um individuo a quem as pessoas não passavam muito cartão, tinha o seu circulo de amigos, mas era muito restrito. E depois, ainda por cima, era de Mafra e isso, na época, era uma coisa complicada. E nós não ganhámos por mérito nosso, ganhávamos porque os candidatos do PSD eram ainda muito piores.

Mas o meu relacionamento com a população foi sempre bom. Ao nível dos pescadores não. Quando digo o pescador é porque o pescador é difícil, porque o pescador dá um peixe, mas está a sempre à espera que lhe deem um porco. E a minha dificuldade era sempre essa, tinha sempre dificuldade em falar com eles, mas a coisa ia marchando.

Quando fomos para a junta eu relacionava-me bem com as pessoas, desenrascava as pessoas. Acho como positiva a minha passagem e o conhecimento da minha passagem pela junta. Eu também estive no recenseamento eleitoral após o 25 de Abril, fiz parte das comissões recenseadoras. E isso leva-me também a ser muito conhecido. Eu as vezes digo às pessoas, eu conheço o presidente da câmara e o presidente da câmara também me conhece. Andei muito envolvido nessa história nunca perdendo o sentido do trabalho, mas sempre envolvido nisso.

Agora a Assembleia de Freguesia já é uma treta. E porquê? A maioria das pessoas nem tem a noção, nem sabem, que aquilo depois é pelo método de Hondt, mas quem tem a maioria faz o executivo. E nós fizemos sempre acordos com o PSD naquela altura.

Há pessoas que nem sabem para onde é que vão, a maioria das pessoas não sabe para onde é que vai. Foram convidados para uma lista e entram numa lista e depois julgam que vão para a junta e depois já não vão para a junta e vão para a Assembleia, e na Assembleia ouvem só xarope. Nós quando tivemos lá fizemos um acordo de cavalheiros com o PSD. As pessoas que vão para a Assembleia de Freguesia não se preocupam, não sabem que há um regimento, não querem saber o que está em discussão, o orçamento já vem fabricado pelo executivo. Hoje é uma treta.

Aqui no caso da Ericeira é pior porque quem manda na Junta é o presidente da câmara.

Quando o PS ganhou a Junta aqui na Ericeira notou-se a diferença?

A sensação que eu tenho é que as pessoas conheciam quem lá estava, porque os elementos da Junta davam mais a cara. Estes, hoje, dão a cara para vir no cartaz e depois encolhem-se de um lado ou do outro. Eu não sei quem são os elementos do PSD na junta e antigamente toda a gente sabia quem lá estava, hoje não sei quem são, a não ser que vá a lista ver. Mas no PS é a mesma coisa. No outro mandato eu não sabia quem eram os elementos do PS que estavam na Junta.

Naquela altura as pessoas ligavam mais à politica, ligavam mais à cara das pessoas. Toda a gente sabia que eu era do PS e toda a gente sabia que eu estava na junta. E hoje, se for perguntar a uma pessoa se sabe quem é que está na junta, perguntam logo “o presidente? Parece que é o Filipe Abreu”, parece…. Então e os outros, os outros ninguém sabe quem são. O que eu acho que não esta bem numa junta de freguesia, no caso da Ericeira, é que quem faz todas essas brincadeiras é a câmara, nomeadamente o presidente da câmara. Os presidentes de junta do PSD são pura e simplesmente servidores da câmara. É esta a regra, e se quiseres ficas, se não quiseres não ficas. Isso para mim era muito complicado.

Agora repare, eu candidato-me à junta e ganho a junta e depois acha que eu estava lá muito tempo? Quando chegasse à câmara para falar com o Hélder começava lá a empregada a dizer que o Sr Presidente hoje não o pode atender e a perguntar o que é que eu ia lá fazer. Eu ao fim de mês e meio ou dois meses estava a pôr-me a andar. Eu vou candidatar-me e depois posso ganhar e depois nado nisto? Nem pensar nisso, não vou enganar as pessoas.

Há indivíduos que fazem trabalhos para a câmara, por esquinas e travessas, a outros que arranjam obras logo no inicio, que dá menos nas vistas que no fim do mandato. E eu, estes sapatos que tenho calçados foram as minhas filhas que me deram. Eu não sou diferente de ninguém, mas não sou igual a muita gente e costumo dizer que todo o homem tem um preço.

Não sei até que ponto, se me aparecesse um individuo com uma saca cheia de dinheiro para uma decisão importante que eu tivesse de tomar, não estou a ver bem qual, mas que eu não pegasse na mulher, nas filhas, na neta e na trouxa e dava corda aos sapatos. Estou isento porque não estou nesses cargos, mas não digo que sou melhor que ninguém.

Eu não concordo, nem nunca concordei que os presidentes de junta façam parte da Assembleia Municipal. Repare, no nosso caso temos ali 11 indivíduos que levantam o braço e baixam o braço e mais nada. Se houver um que tenha a hombridade de lá ir e discutir, como já houve, um do PSD que uma vez foi lá… Até era da mesa um tal de Boto que tinha umas máquinas agrícolas. O presidente de junta vai ali fazer o quê? Não vai fazer nada. Vai receber uma senha? Uma senha porquê, se ele já recebe da junta. Não são uma mais valia, não concordo com esses indivíduos lá, mas os partidos também não querem mudar.

Porque é que o PS nunca foi uma verdadeira alternativa ao PSD no concelho de Mafra?

Eu acho que o PSD se enraizou muito bem. O PSD foi buscar uma serie de pessoas, uns caciques locais de determinados sítios, nomeadamente em Santo Isidoro, Encarnação, Ericeira, em Mafra não tanto. Mas aquela área toda ali de Santo Isidoro e da Encarnação e agora mais recentemente a Carvoeira.

O PS também beneficiou desse estatuto no caso da Carvoeira, no caso de Mafra o Sarmento dominava Mafra, o Peixe dominava Carvoeira, o Mário Cravina dominava a Ericeira, o Júlio Lopes dominava a Ericeira, e verdade se diga que foi um bocado assim. Mas o PSD enraizou-se com mais força em sítios do concelho muito maiores. Quando o Portela se candidatou para a câmara, o Portela tinha 700 votos de avanço e quando vêm lá os votos da Encarnação, eram 1400. Eu tenho em querer que lá na Encarnação há chapelada. Eles nem sequer lá admitem fiscais de outros partidos. Admitir, admitem, mas se for uma pessoa de algum modo frágil e que seja provocado durante algum tempo a malta vai embora. Eu não tenho a certeza se todos os votos ali sejam legais, nunca tive nem tenho, porque a diferença ali é sempre muita.

Aqui da Ericeira, estruturaram-se em determinados sítios e depois existiam os indivíduos da panificação, os Sardinhas, o Sardinha aqui de Mafra, Havia uma serie de indivíduos que já eram, pegaram nessa malta toda e começaram a pô-los. Eu lembro-me que uma vez fui a inauguração da sede da Banda da Ericeira, na altura era cá em cima, e o Sardinha, actual Vice-Presidente da câmara, virou-se para mim e disse-me “você é como o prato de arroz doce, você aparece em todas” – ele mora ao pé de mim e hoje é meu amigo, não tenho duvida nenhuma, até teve um gesto altamente simpático para a minha mulher, veio busca-la para ir tomar conta da mãe dele durante 5 anos e pagava-lhe bem – mais tarde disse-lhe afinal de contas o prato de arroz doce é o meu amigo, o meu amigo é que está em todas e de gravata e fato, eu não.

Eles implantaram-se bem. Naquela época, na época da implementação do PSD no concelho, houve aquela teoria que o PS ou o PC era a mesma coisa e isso pôs muita gente, aqui no caso da Ericeira, a cair para o outro lado. Sei que havia pessoas que votavam no PS porque eu era do PS. Quando ia lá para cima para Fonte Boa dos Nabos ganhava sempre a mesa. Uma vez foi par lá o Filipe Abreu e eu ganhei a mesa e ele diz logo “isto parece uma coutada do PS” e eu respondi-lhe logo que era a mesma coisa que na Encanação e em Santo Isidoro. Cheguei a dizer a um individuo de Santo Isidoro, amigo da minha mulher, “como é que é a lista do PS lá para a junta?” e ele dizia “é uma equipa boa” e tu votas no PS desta vez? “Não, eu voto no PSD. É que aqueles gajos estão mais próximos da câmara e eu quero é gajos próximos da câmara”. Estou convencido que no dia em que o PS ganhar a câmara de Mafra há muita gente a dar a cambalhota. A votação noutras circunstâncias, que não para a câmara, é sempre diferente.

E isso tem sido sobretudo mérito do PSD ou também há falta de mérito do PS ao longo destes 40 anos?

Estou convencido que também há algum demérito do PS, há aqui muitos tiros nos pés. Mas o PSD como está instalado de tal maneira, e está no poder, é mais fácil.

No PS há sempre aqueles paraquedistas que aparecem todos os anos a tentarem ser candidatos ao que quer que seja e depois vão embora. Como lhe digo, fiz parte da comissão politica desde a primeira, até agora já conheci muitos que já não vejo por cá, eles e elas. Apareceram uns porque queriam ser candidatos à câmara e não foram, outro queria ser candidato à assembleia e não foi, o outro queria ir para uma junta e não foi e desaparecem. Isso de algum modo também desestabiliza. E tem havido muitas coisinhas.

O PS foi segurado, em Mafra durante muito tempo pelo Sarmento, pelo Botelho, pelo Mário Cravina, pelo Júlio Lopes e mais uns quantos. Eu lembro-me que uma vez, numa comissão politica, “aquilo lá em Mafra é só mafarricos” e eu levei daqui comigo três, nunca apareceram. Só aparecia eu.

Como é que vê o futuro do PS no concelho?

Eu não sei. Se quer que lhe diga não sei. Estou convencido que a lista do rapaz, do Portela vai ao ar. Não tenho duvida nenhuma que alguém se anda a mobilizar forte e feio. O Portela candidata-se sempre mas desaparece. A partir dai eu não sei, não sei quem são os outros elementos da lista do outro, sei que o Sérgio Santos está por trás e provavelmente vai puxar os cordelinhos e a coisa vai funcionar.

Os actuais membros do PS na Assembleia Municipal estão todos empolgados, verdade se diga, estão todos empolgados. Eu no inicio desta campanha, e tenho assistido às campanhas quase todas, disse que a que estava a começar melhor foi esta, não sabia qual ia ser o resultado, mas a que começou melhor foi esta. Foi uma coisa com os pés mais assentes na terra, há indivíduos, se calhar mais capazes e mais disponíveis. Nesses aspectos a campanha não falhou, mas depois veio-o de lá o Santo António e foi diferente. Neste momento, por aquilo que tenho seguido, tenho visto que há mais empenhamento nesta malta. Quer o Renato, quer o Samora, a Leila, a senhora que foi lá presidente da junta da Azueira, eu próprio. Vejo-os mais empolgados, vejo-os até mais a falar uma linguagem de vamos dar cabo do PSD, vamos trabalhar para contrariar o PSD. Que é uma coisa que eu nunca ouvia. Não sei se isto depois em termos práticos tem algum resultado ou não.

Há uma guerra entre a Ericeira e Mafra de algum regionalismo como é que vê isso?

Essa guerra esta desfeita. Tudo começou com a perca do município. Porque disseram que de algum modo Mafra tinha sido culpada, mas não foi. Antes já havia alguma, porque nós tínhamos o mar eles tinham o convento. E isso hoje está ultrapassado.

Há indivíduos ainda, como eu que tenho 67 anos e que ainda sou Jagoz, e de vez enquanto chego a Mafra e canto o fado da Ericeira e sei que estou a espetar uma farpa lá na malta. Mas já são poucos. Há malta na Ericeira casada com gente de Mafra e de Mafra casados com gente da Ericeira, o que na altura era impossível.

É só já para malta da minha idade, e para alguns, já não são todos. Porque, dizer-se que se é Jagoz em Mafra, também é preciso ter coragem, porque também há lá o contrario. Há lá quem diga “vocês comem peixe podre” também há. Por isso, para ser jagoz em Mafra, tem de ter cuidado, e algum arcaboiço, senão estamos feitos ao bife.

Mas já é só brincadeira.

No futebol ainda há alguma rivalidade, mas não passa disso mesmo. Já não há aquelas cenas de pancadaria, aquelas provocações. Lembro-me que o Jaime Lobo e Silva, na época dele, não comia nem ia à casa de banho a Mafra. Ele, de algum modo, foi acusado da perda do município pela Ericeira. O que não era verdade, mas ele não gostava de Mafra. A Ericeira tinha um hospital e Mafra tinha um parideiro. Agora isso já não existe.
Mafra vendia bolos que eram produzidos na Ericeira. Em Mafra havia o papel selado, os militares, o tribunal, as finanças, que era tudo do que as pessoas não gostam.

Para além disto tudo, também é fadista nas horas vagas, como nasceu esse gosto?

Se quer que lhe diga nem sei muito bem. Não tenho ninguém na família, mas sempre gostei de ouvir cantar. Quando era puto ia ali para o Marialva, porque havia lá um senhor que morava na minha rua, que era do tempo do Marceneiro, era da escola do Marceneiro, cantava, segundo diziam os entendidos na época, muito melhor que o Marceneiro. Eu achava graça porque ele não sabia ler, o que ele cantava era a mulher que lia e ele decorava, e eu ia lá para a porta ouvir.

Mas depois desliguei-me, moço pequeno, a escola. Quando entrei no grupo cultural, um dia comecei a cantarolar no café, a decorar as peças onde entrava. Colava as letras no fundo da bandeja e quando havia tempo, olhava e tal. As pessoas começaram a aperceber-se. Eu no meio daquelas coisas todas nem me apercebia que estava a cantar alto.

A primeira vez que cantei foi quando um dia me apareceu o pai do Xico Gato, o Sr Francisco Alves Gato, que tocava guitarra e tinha uma Sociedade onde é hoje o Vila Azul, era A Cocheira. Um dia faltou-lhe uma pessoa para cantar e ele foi ao café Morais, que era mesmo ali ao lado “ó Orlando empresta-me ai o puto para cantar ali duas letras” e eu fui com ele. Eu só sabia duas letras e fui com ele e ajeitei-me logo. Fui cantar no salão, aquilo foi desenvolvendo, fui convivendo com um rapaz que hoje está na América e que tocava viola, o Armando Pinho e aquilo foi evoluindo.

As pessoas foram dando algum feedback que eu tinha algum jeito e a coisa foi andando andando. Cantei duas vezes, em directo, para a Rádio Comercial, ali no jogo da bola, cantei para a Antena 1 fui uma vez cantar lá à televisão, ao programa que na altura era do Goucha e da Sónia. E se tudo correr normal, em Fevereiro vou à América, não tenho a certeza, mas acho que é na área da Florida. Tenho uma prima que é líder lá de uma associação de Portugueses.

Na Ericeira faz parte de um grupo de jagozes celebres. Como se sente enquanto um dos representantes da Ericeira de outros tempos?

Eu convivo muito com o Sr Amadeu, o Amadeu Duarte Ferreira que não é um individuo cá da Ericeira, veio para cá para trabalhar, é um entusiasta das coisas da terra. Ele ficou com o espolio do Jaime Lobo e Silva, porque a mulher dele era sobrinha dele. Eu já lhe disse que ele tem de publicar aquilo tudo, porque qualquer dia ele morre e aquilo também morre. Ele não esta interessado em ganhar dinheiro mas também não esta muito interessado em chatear.

As pessoas também veem ter comigo a perguntar muita coisa. Agora neste livro do Orlando de Morais ele faz lá uma referência elogiosa a mim, porque identifiquei muitas fotografias daquelas.

Agora a idade trouxe-me, não sei se é virtude, ou outra maneira mais clara de ver as coisas, é que as pessoas só falham comigo uma vez.  Antigamente falhavam comigo duas, três vezes eu dava sempre um bónus, mas as pessoas comigo agora só falham uma vez.

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