Crónica | Alexandre Honrado – Em luta pela paz (sempre)

A Paz, como tema, tem vindo recentemente à tona das mais mportantes realizações do pensamento, dos centros que mais a promovem a outros que, por inesperados, são ainda mais de louvar.

Não há, vendo bem, um intérprete habilitado da Paz, alguém que fale em nome dos povos. É claro que António Guterres, o Papa Francisco, o 14º Dalai Lama, Malala Yousafza ou Kailash Satyarthi, em escalas diferentes e muito pouco difundidas, têm uma palavra intensa que devemos escutar. Mas são exceções num mundo convulsivo.

Há, isso sim e cada vez mais, a necessidade dos povos interpretarem a Paz como tarefa sua, mobilizando-se para ações que a estabeleçam e promovam. Valores culturais que promovam a paz, a harmonia, a aceitação das diferenças, o desarmamento dos pensamentos mais conflituosos, que combatam a violência (da doméstica à domesticada traduzida por exércitos de assassinos de tantos formatos). Valores de intolerância, diria, pois quem tolera a violência está longe de acabar com ela.

Tenho participado – de todos os lados, isto é, como orador, como convidado, como mero espectador e como observador institucional (representando o Observatório para a Liberdade Religiosa ou o Núcleo de Investigação Nelson Mandela) em inúmeros desses acontecimentos, sendo que me parecem de destacar os que são promovidos pelas Forças Armadas, de vários países, e pelas estruturas religiosas, de outras tantas nações, apontadas por vezes com razão mas a maior parte das vezes sem ela, como fulcrais na geração e promoção dos conflitos, da escaramuça menor a genocídios infames.

Estes encontros promotores da Paz, do seu garante, defesa ou requisição, acabam por ser muito didáticos mas fracos mesmo assim nas sequências que deles se retiram.

Quando falamos da Paz, falamos do futuro da Humanidade. Quando falamos de Forças Armadas falamos de contingentes legítimos de defensores da paz em cada País – os soldados não existem para fazer a guerra, mas para evitá-la, embora até isso seja uma ideia nublosa em muitas cabeças. Quando falamos de estruturas de crença e de religiões, falamos de grandes contingentes de atores sociais que possuem, sem exceção, a matriz da Paz na sua linguagem mais sagrada. Quando falamos de Guerra, falamos sempre de traidores: dos que mandam avançar exércitos em nome da destruição da concórdia, ou de líderes que por interesses próprios manipulam e instrumentalizam os seus fiéis para um combate que nada tem a ver com a essência daquilo em que acreditam.

Veja-se o grupo de países que na ONU mais se opôs ao Tratado de Não Proliferação Nuclear: : Israel, Estados Unidos, Canadá, as Ilhas Marshall, Micronésia e Palau. Washington, que tanto fala da ameaça de um Irão nuclear, nunca fez nada para estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente. E acabou por enfrentar de um modo vil a ONU, nesta belicosa era Trump. Percebemos a posição de Israel. E procuramos no mapa com uma lupa de grande capacidade, as ilhas Marshall, a Micronésia e Palau.

Se olharmos com atenção para a ameaça nuclear, os Estados Unidos são o principal inimigo – e a questão da Coreia do Norte veio relançar a apreensão dos povos. Mas esse olhar, leva-nos ao Irão, à Índia, e a outros surpreendentes locais. Como alguém já disse, a ameaça iraniana é uma obsessão totalmente do Ocidente, compartilhada por ditadores árabes, embora não pelas populações árabes.

Recordo as palavras do general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico norte-americano: “É extremamente perigoso que, no caldeirão de animosidades a que chamamos Médio Oriente”, uma nação, Israel, deva contar com um poderoso arsenal de armas nucleares, “que inspira outras nações a tê-lo também”. Butler viria a dizer mais tarde que a estratégia de contenção nuclear é “a fórmula para uma catástrofe sem remédio”, convidando os Estados Unidos e outras potências atómicas a aceitar os compromissos contraídos dentro do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e fazer esforços de “boa fé” para eliminar a praga das armas atómicas. É urgente a promoção de zonas livres de armas nucleares – no Médio Oriente e noutros locais que nos ameaçam e condenam.

O tempo passa. A ameaça aumenta. E os que combatem pela Paz tardam em por em campo as suas armas mais eficazes: o poder de agir e depor aqueles que mandam. Sim, gosto de utopias.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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