Entrevista | Júlio Lopes – Uma das figuras típicas da Ericeira [2ª parte]

Qual foi a evolução da pesca na Ericeira desde que começou a trabalhar na lota até ao ano em que se reformou?

A evolução, não foi evolução. Foi uma evolução negativa, porque quando eu fui para a lota havia 40 barcos. As condições em que se trabalhava eram muito, mas muito, piores que as de hoje.

O problema da areia, de que tanto se fala, é grave, mas antigamente também havia areia, os barcos eram puxados pela praia. Esse problema está já equilibrado. As condições em terra é que não estão equilibradas.

A evolução é negativa e negativa porquê? Na altura havia 40 barcos, havia menos horas, havia menos possibilidades de ter material para poder ir trabalhar, não havia rádios, não havia nada do que há hoje. Havia só um individuo que tinha mais poder económico e que tinha mais material. Hoje há mais condições para ir ao mar.

Antigamente os pescadores eram mesmo pescadores. As mulheres iam levar o pequeno-almoço lá abaixo, eles iam almoçar e estavam lá, se fosse preciso ir à pesca ao safio, iam à pesca ao safio, se fosse preciso fazer outro tipo de pesca faziam, agora não.

Tinham de chegar a terra e cozer as redes e hoje não, hoje não há lá ninguém que perceba. Hoje está cheio de pessoas que não tem nada a ver com a pesca. Hoje são antigos empregados de escritório, antigos empregados disto, antigos empregados daquilo, que estão lá em baixo a trabalhar, até chegar à reforma. Pescador, pescador no sentido prático, conhecedores do mar, conhecedores da pesca, já há lá poucos em baixo.

Na altura que eu fui para lá, existia também a guarda fiscal que impedia grande parte da candonga que se faz hoje. Havia mais peixe na lota para vender, havia marisco para vender. Se bem que houve sempre a história de passar as lagostas, mas havia-as lá e hoje não há.  Hoje levam para a lota aquilo que querem e lhes apetece. Não há ninguém que controle nada. Tem mais horas de pesca, mas os anzóis não devem ter bico, apanham menos.


Quantos barcos existem hoje?

Hoje, se houver são 12, 12 profissionais, e só desses é que eu falo, que dos outros não percebo.

Eu cheguei a vender na lota, uma vez cheguei a cantar mil vezes, mil vezes correspondia a mil talões, mil talões correspondiam a utecas, que podiam ter 20 Kg ou 1 Kg, e depois às 5 horas parava-se e ia-se vender o marisco. Isso de há uns anos a esta parte é tudo mentira.

Continua a vender-se peixe na lota da Ericeira?

Não. Desde Novembro de 2015 que não se vende peixe na lota da Ericeira. O peixe daqui vai para onde eles quiserem mas fundamentalmente vai para Peniche. A lota aqui é um posto de passagem, aqui é só para pesar e enviar para outro lado. Aqui fazem-lhe uma guia electrónica e pronto.

Como é que vê atividade recente da associação dos pescadores da Ericeira?

Não os conheço, não sei quem são, porque nunca lidei com eles.

Mas não pescam? Não é constituída por pescadores?

Não, é constituída por donos de barcos. São pescadores, virgula, são donos de barcos, como tal são proprietários.

Tem alguma coisa a dizer em relação à Associação?

Não tenho nada, porque eu nunca convivi com eles. A associação aparece depois de eu ter saído. Esboços existiram muitos, mas só depois de eu ter saído é que ela aparece. Mas por aquilo que vejo, não vejo nada…Vejo aquilo lá em baixo cheio de areia, mesmo no sitio onde passam os carros. Vejo a rampa com areia. Não vejo movimentações de ir aqui, falar com o ministro A ou ao ministro B, não vejo nada. Mas também lhe digo, ando com uns óculos escuros, se calhar não vejo porque não vejo mesmo.

Sou do tempo em que chagamos a ir a Lisboa falar com a Direccão Geral de Portos, falar com o ministro, isto ainda na recuperação do antigo molhe, nessa época, hoje não sei como é que é, eu estava incumbido de ir falar com dois ou três pescadores e a conversa era sempre “quem é que nos paga a maré?”. As pessoas, como são as mesmas, e a massa é a mesma, se calhar o comportamento é o mesmo.

Houve aí uma altura em que a praia apareceu com bandeiras negras …

Mas isso é folclore, o folclore é que dá para isso. Se for pedir responsabilidades ao individuo que la foi por as bandeiras ele diz que não foi ele…

O que é que falta fazer para que o surf e a pesca possam coexistir e ser actividades lucrativas para os Jagozes, para a Ericeira e para o país?

Eu acho que as coisas não colidem, mas isso depende de como se vêem as coisas em si, porque às vezes vê-se gentinha do surf, supostamente donos e professores, que são malcriados em relação aqueles que não praticam surf.

Os surfistas têm a mania que são donos da praia, isso aí é ponto assente, donos da praia, do sitio em que se faz surf, eles são os donos. Tal como o pescador tem a mania que é dono do mar, os pescadores estão convencidos que o que está ali é tudo deles. Agora eu não sei como é que convivem, mas são capazes de conviver, até porque já tem existido algumas ajudas de salvamentos com surfistas e vice-versa.

Até parece que eles comem do mesmo tacho. Agora, os utentes das praias, às vezes tem alguma dificuldade em tomar banho, porque não há zonas demarcadas. Eu lembro-me que era miúdo e pegávamos numa piteira, tirávamos-lhes os picos laterais e fazíamos de prancha, mal sabia eu que mais tarde aquilo se ia chamar surf e havia umas pranchas próprias para aquilo.

Não há zonas demarcadas e devia haver. É certo que eles praticam lá numa zona onde as pessoas não vão, mas às vezes estão dentro da área onde supostamente não deveriam estar.

Os surfistas apareceram muitos e depressa. Quando foi a apresentação do livro do Orlando de Morais, um dos oradores foi o pintor Rui Pinheiro, que a certa altura, diz ser um seguidor do Orlando de Morais, porque pintava da mesma maneira que ele e com as mesmas cores, o branco e azul, só que agora corria o risco de haver um surfista a cada esquina. O Presidente da câmara não gostou muito do que ouviu.

Vieram os Hostels para a Ericeira, vem muito mais gente, há muito mais comercio. A partir do ultimo dia de Setembro, ou do primeiro dia de escola, a Ericeira morria pura e simplesmente, eu costumava dizer que a Ericeira não tinha autoestrada, mas tinha o general Inverno que aparecia no dia 1 de Outubro. Quando eu era mais miúdo havia casas que fechavam, o café Xico fechava, outras fechavam e depois só reabriam no verão. Isso hoje não acontece.

Isso é muito melhor que o Summer Fest porque o Summer Fest só produz é lixo. As pessoas que vêm atrás do Summer Fest parece que vêm a uma feira. Eu nunca gostei de feiras, mas ao acabarem a feira e criarem o Summer Fest… Tráz para cá uma qualidade de gente que parte tudo, sujam em qualquer lado e por outro lado a Junta de Freguesia deixou de receber aquele dinheirinho que recebia com as feiras, e fazia umas habilidades extra.  Aqui na Ericeira, quando fiz parte da junta, se não fosse a feira, estávamos feitos, porque a câmara, ou íamos lá à mão beijada…. Ou o nosso dinheiro, que correspondia as finanças locais, só vinha quase no fim do tempo. Essa gente fazia-nos falta, agora esta gente do Summer Fest não faz cá falta nenhuma.

O surf dá movimento à terra isso é verdade que dá.

Foi dirigente desportivo do G.D.U.E. durante vinte anos, dos Bombeiros e da Misericórdia mais algumas instituições?

Só não estive na banda. Fiz parte da campanha quando foi da recriação do concelho. Fui Presidente da Assembleia Geral do Fórum, que englobava, do ponto de vista teórico, pois do ponto de vista pratico era mentira, todas as colectividades que havia na freguesia. Eu era o representante dos bombeiros, mas a direccão dos bombeiros estava-se borrifando para isso. O Ericeirense estava com um pé dentro e um pé fora. Os bombos estavam com um pé fora. Havia uma liga de amigos que estava fora. Quer dizer estavam lá, mas estavam de fora. Quando havia Assembleias Gerais só lá aparecia metade. Logo nunca foi devidamente estruturada e não foi assumida enquanto tal, andou sempre a boiar. Havia 3 ou 4 indivíduos muito entusiastas da ideia e participavam, mas quando era para comparticipações ninguém tinha. Havia reuniões no Pedro Pescador com alguma regularidade, o Vítor Aguas, que mais tarde foi provedor da Santa Casa da Misericórdia, era o individuo da liga dos amigos, o António Carlos da Ovni, e havia também o Mano Silva, que não era de nada.

Mas também…quando toca a dinheiro, a câmara que pague, a junta que pague, o governo que pague, porque ninguém quer tirar do bolso.

 

[Na transcrição da entrevista, optámos por uma revisão mínima, mantendo na escrita, nas medida do possível, o linguajar e o tom do entrevistado]

Amanhã publicaremos a terceira e última parte desta entrevista.

A política, o PS, o PSD, a guerra entre a Ericeira e Mafra, e claro, o fado.

Siga-nos nas redes sociais

Artigos Relacionados

Leave a Comment