Entrevista | Júlio Lopes – Uma das figuras típicas da Ericeira

Todos conhecemos um “Júlio Lopes”. Todos conhecemos – porque eles são muitos – alguém a quem a vida ameaçou chutar para um canto, tornar invisível, alguém de quem a vida troçou, alguém a quem a vida traçou triste destino.

Alguns de nós, poucos, acabam por conhecer um “Júlio Lopes” que trocou os passos ao destino, que logrou provar que o destino somos nós que o fazemos, quando podemos.

Júlio Lopes fez o seu destino e é hoje uma das figuras típicas da Ericeira. Trabalhou na restauração, guardou montes na praia, fez propaganda, vendeu souvenirs na rua, vendeu pão de milho, emigrou para a Suiça, vendeu na lota e acabou a sua carreira profissional como responsável pela lota de Ericeira. Em termos políticos fez parte da Junta de Freguesia da Ericeira e da Assembleia Municipal de Mafra. Passou pela Santa Casa da Misericórdia da Ericeira, onde, por necessidade, ia tomar o pequeno almoço em criança, e onde, hoje, faz parte da direcção.

 

Júlio Lopes, um homem de convicções, um homem com um destino improvável, um Jagoz a quem o Jornal de Mafra registou a voz e as histórias.

(Devido à sua extensão a entrevista foi dividida em 3 partes, a primeira das quais é apresentada de seguida)

 

Nasceu em 1950, como é que recorda a Ericeira da sua meninice?

Era muito complicado. Muito complicado, pelo menos para as pessoas da minha geração.
Havia famílias ricas, mas contavam-se pelos dedos. Tudo o resto, ou quase tudo o resto, tinha muitas dificuldades. 

Essa Gente rica, era gente daqui da Ericeira ou era gente que vinha de fora?

Os Carés eram cá da Ericeira e havia outra família rica que também era de cá. Os donos do Totta e Açores, os Casal Ribeiro, esses não, não eram de cá. Havia o Casal Ribeiro, que foi provedor da Santa Casa da Ericeira e que na época conseguiu trazer para cá um reclame da “Gáscidla” , que puseram em cima do telhado. Pagava na altura 30 contos pela instalação do anúncio e gás de borla para Misericórdia da Ericeira.

A Pensão Estrela era do meu tio e padrinho, que se chamava Júlio Carvalho, ele chegou a ser o representante dos alemães na Ericeira na altura da guerra. E havia um senhor, que era o Santos Fino, que era dono daquela papelaria onde é hoje a Ovni, que era o representante dos Ingleses.

…Mas falava da vida difícil desses tempos na Ericeira

Naquela época existiam dois tipos de pessoas. Os indivíduos como eu, da minha escola e da minha brincadeira, que eram chamados Júlios, eram aqueles indivíduos que não tinham pai, como era o meu caso, pois sou filho de pai incógnito e a minha mãe, ainda por cima, era deficiente do braço esquerdo. Havia outros, cujos pais eram empregados e que ainda tinham algum rendimento ao fim do mês.

Na época, na Ericeira havia muita gente que era embarcada. Lembro-me, por exemplo, que à segunda feira, a carreira das seis da manhã, para Lisboa, que ia até Algés, seguia sempre cheia de gente. Eram os que iam para o mar. Uns andavam na pesca e outros no comercial. No verão havia alguns que através do Dr. Peralta, uma figura também muito emblemática da Ericeira, embora fosse de Mafra, com ele conseguiam umas baixas médicas de algum modo fictícias. Assim, alguém que estivesse na escala e fosse chamado para embarcar, mas tivesse um barquinho na Ericeira, com que ganhava uns tostões no Verão, ia ao Peralta, e este arranjava-lhe uma diarreia para aquele dia, e o senhor não embarcava. Ele fez algumas coisas dessas, de que ele próprio se penitenciava, embora, em troca recebesse umas garrafas de whisky, que consumia em abundância.

Foram tempos difíceis esses…

As pessoas na minha situação tinham muita dificuldade.

Naquela altura as dificuldades eram muitas. A minha avó fazia uns trabalhos para entregar a umas senhoras, no Verão, e ganhava uns tostões. A minha mãe, embora com aquela dificuldade, ainda levava uma água, na altura a água canalizada era pouca, e ainda lavava um chão.

Entretanto, nasceram mais dois irmãos meus, nós somos três, um de cada pai, logo, a dificuldade acrescia. A minha avó era uma senhora espectacular, por quem tenho uma grande admiração, mas era “pão pão, queijo queijo”, e foi ela que assumiu a nossa responsabilidade. Era o nosso pai, a nossa avó e a nossa mãe, era tudo. A dificuldade era muita, de facto, a fome passou muito por mim e eu habituei-me à ideia. E com a fome vinha a disciplina. Por isso eu sou um individuo disciplinado em termos de horários e em termos das outras coisas.
Trabalhei 53 anos seguidos e não tive um dia de baixa, nunca pedi trabalho e tive 48 anos de caixa, porque nos sítios onde eu trabalhava davam sempre boas informações para eu ir para o outro trabalho.

Com que idade começou a trabalhar e a fazer o quê?

Comecei aos 13 anos, num café. Num café que abriu na Rua do Norte e que ainda existe. Mas antes disso trabalhei muito nos Verões. Aos 11 anos trabalhei a lavar loiça no restaurante Gaivota, com 10 já ia para a praia, pois antigamente havia muita chaputa e peixe espada aqui na Ericeira e os homens iam ao peixe, enquanto os miúdos ficavam a tomar conta dos montes. No restaurante Gaivota lavava a loiça e entregava aquilo a que na altura se chamava propaganda, que eram uns cartazes que tinham o mapa do local do restaurante relativamente ao jogo da bola. Com 12 fui trabalhar para o hotel, onde vendia batatas fritas na piscina. Há mesmo um filme publicitário da Ericeira criado em 1962, em que aparece um miúdo vestido de amarelo e com um cesto, era eu a vender batatas fritas no hotel.

Antigamente, de 2ª a 6ª, vinham para cá os “Claras” que era uma empresa de camionagem, vinham de Lisboa e faziam Sintra, Malveira, Mafra e Ericeira, onde almoçavam. Às vezes vinham 20, outras vinham 5, outras vezes vinham 15 mas todos os dias vinham. Então, durante a hora do almoço eu e uma rapariga íamos à porta do hotel vender produtos, os souveniers de hoje.

Lembro-me que quando vieram desafiar-me para o hotel, eu ainda estava na escola, estava na 4ª classe e não tinha sapatos, mas na piscina eu tinha de trabalhar de sapatos.  Então, fui ter com um rapaz, que até há pouco tempo ainda trabalhava ali no Central, e pedi-lhe uns sapatos emprestados, a ele, que de resto, era tão pobre quanto eu. Ele emprestou-me uns sapatos que tinham um buraco, um buraco na sola. Tinham um buraco, mas eram uns sapatos, e era o que havia.  Na época, o director do hotel era o senhor Ernesto, um irmão do Dr Renato e que era casado com uma senhora francesa. Um dia, o senhor Ernesto chamou-me e disse-me “ouve lá, há ai umas senhoras que querem falar contigo e querem ver aí uma coisa”. Combinamos encontrar-nos na beira da piscina às 7 horas. Quando lá cheguei, estavam lá duas velhas sentadas na esplanada e eu pensei, o que é que terá acontecido? Terei feito alguma coisa menos bem? Mas lá fui ter com elas. O senhor Ernesto diz que as senhoras querem que tu faças uma coisa, querem que descalces os sapatos, vais lá abaixo, lavas os pés e vens para cima, elas dizem que tens aí uma ferida nos pés. Lá fui, lavei os pés e voltei para cima descalço e elas lá viram que não tinha ferida nenhuma. Tinham lá uma caixa com uns sapatos novos e coisas para me tratar da suposta ferida, que eu afinal não tinha. Mandaram-me deitar os sapatos velhos fora. Ai é que foi o problema. Os sapatos não eram meus. Estava na hora de eu sair, muito obrigado, beijinhos e abraços, saí dali, dei a volta por trás e fui buscar os sapatos, que tinha atirado para a praia e levei-os ao rapaz.

As dificuldades eram efectivamente muitas.

Desde os 7 anos que fui cliente da creche lá ao Norte, estive lá até à saída da escola. Lá ia almoçar e depois, à noite, comia daquela sopa que a minha mãe ia la buscar, que era para me estragar o estômago, este corpo “Danone” foi criado à base disso. Ainda sou do tempo em que a creche tinha vacas em Fonte Boa dos Nabos, mais tarde, já era leite em pó, e eu aí podia ter muita fome, mas não gramava aquilo. O queijo e o pão tudo bem agora o leite…Também ia tomar o pequeno-almoço à Santa Casa, mas isso era mais para a brincadeira.

Existia lá em baixo uma padaria, ali ao pé da Casa da Cultura, onde está agora um chinês, praticamente foi aí onde fui criado, aquilo que eu sou hoje, um bom bocado devo-o a ele (Pedro da Padaria), e outro bom bocado devo-o ao Orlando Morais. Mas nessa padaria podia ir beber café com leite e carcaças com manteiga, as que quisesse.

 Lembra-se do primeiro salário?

Foi em 1963 e eram 300 escudos a trabalhar num café atrás de um balcão, a empacotar farelos, a dar comer aos porcos, a ir fazer venda de pão de milho no percurso que vai daqui até ao Lourel, num dia virava a esquerda para Montelavar e no outro seguia em frente ia para Almoçageme, e Colares, fazia aquela zona toda.

Mas olhe, eu, com 25 anos, devo ter sido o primeiro individuo da Ericeira a ir ao estrangeiro passear com tudo pago por mim. Porque pago pelos pais haviam alguns, alguns andavam embarcados para a Angola e iam levando os filhos a bordo, levavam um de cada vez, ou a mulher.
Saindo daqui com dinheiro seu devo ter sido o primeiro da Ericeira. Fui ver o Benfica à Holanda, a Hannover. Na altura era o Zé Henriques o guarda redes.

Quantas profissões é que teve?

Tive a que acabamos de falar, foi a primeira, foi a de arranque, mas depois quis sair pois os meus irmãos já estavam mais ou menos em pé e eu queria mudar. Fui para as pinturas, mas na pintura estive relativamente pouco tempo, o único trabalho que fiz foi em Mafra, no edifício que é hoje uma conservatória. Não me habituei à ideia de levar a marmita, e não fui por ai. Entretanto convidaram-me, e fui para o Morais. E no Morais fui ganhar um ordenado que eles nunca tinham pago, 500 Escudos. Mas a partir do momento em que passei do balcão para as mesas, ao domingo, cheguei a ganhar 1500 escudos com as gorjetas, mas também era pegar as 8 da manhã e largar às 2 da manhã.
Também trabalhei onde é hoje a Caixa Geral de Depósitos que era do Chico Gato e da Palmira, chamava-se “O Cogumelo”. Estive ali 5 anos que foi o tempo que aquilo durou.
Na altura, era para ir para Mafra para a Elo, a fazer aerogramas, como responsável da maquina. Na altura o director era o senhor Caixote. Um senhor que mais tarde foi director da Capital. Foi um dos lideres do PS após o 25 de Abril. Caixote Rosa era o seu nome.

E depois fui para a Suíça.

Para a Suíça? Como correram as coisas por lá?

Fiz um contrato de 9 meses e fui trabalhar para um hotel. Fui por brincadeira. Estava chateado com a minha namorada (que é hoje a minha mulher) e por outro lado, um amigo veio ter comigo muito aflito porque tinha arranjado lá trabalho, mas ele não tinha condições de ir, e eu fui.
Mas vim-me embora, o meu chefe queria que eu continuasse, mas eu tinha 30 anos, tinha de vir para Portugal, queria casar.

Regressei a Portugal em Novembro de 1980 e casei em Fevereiro de 1981.

Foi então que veio trabalhar para a lota?

Entretanto, ainda eu vinha no ar, e já me estavam a convidar para a lota. Para a lota, mas para os tractores, onde estive mês e meio. Quando olhei para a máquina, disse logo que aquilo não era para mim. Porque é que me fui embora? Porque havia lá um cambalacho armado entre duas famílias, que queriam lá por o filho. Antigamente, havia ideia que a lota era para os filhos dos pescadores e quem não era filho de pescador estava fora do baralho. Então eles organizaram-se para por lá o individuo, que tinha mais experiência do que eu, porque já la tinha estado e saído, porque não tinha carta de condução, coitado já morreu.

Um dia em que o mar estava roleiro, o mar estava roleiro quando vinha até cá acima à rampa, o Chico Cebolas disse que ia fazer experiência ao barco. Mas era tudo treta…

…Na altura o comandante do porto era um individuo do Partido Comunista, mas era um individuo com fel e acabou com aquela peixeirada toda que lá havia, se ele hoje fosse vivo e lá estivesse, não havia lá peixaria nenhuma daquela. Naquela altura, por aquela rampa fora, eram caixas e caixas com coisa e ainda havia as casinhas, aquilo era um granel e ele é que acabou com aquilo tudo. O Comandante era cá da Ericeira, era da família ai dos Moleiros…

…O “gajo” quis ir ao mar e ir ao mar, tinham de ser dois tractores, um a empurrá-lo e outro a protege-lo. Ora eu estava sozinho e não tinha experiência nenhuma, tinha para aí 15 dias de tractor, e disse que não punha lá o barco. Fui ter com a minha delegada, a D. Irene, e disse lhe que não estava em condições de fazer aquilo. Ela concordou.

O Comandante, de algum modo fazia a panelinha, e eu disse lhe “senhor comandante eu não ponho lá os pés nem recebo ordens suas, só recebo ordens ali da D. Irene, que é ela que me paga”. Eles não estavam habituados que alguém falasse assim. Estavam habituados,  era ao “alho”, “bugalho” e “fragalho”, ou então era baixar a cabeça.

Entretanto, para tentar acalmar as coisas, a D Irene disse-me para ir lá com um tractor. Eu estava praticamente encostado às Ribas a segurar o tractor que estava perto do mar. Se fosse eu que estivesse lá em baixo, com a pouca experiência que tinha, eu tinha lá ficado. Ficava lá eu e a maquina. Saí de lá e fui por aí acima direito a capitania e perguntei ao comandante se tinha visto aquela cena, se fosse eu no tractor, o senhor estava agora a chamar os bombeiros, a ambulância e trinta por uma linha, porque eu ficava lá.

Disse à D. Irene que me ia embora, ia lá acima fazer contas e não ficava nem mais um segundo. Depois, a D. Irene veio ter comigo e disse-me que eu não me ia embora porque já tinha visto que eu tinha gosto por ser vendedor, porque eu quando não tinha nada para fazer estava sempre ao pé deles, e como tal, entrei para a lota mas por baixo, mas pela porta principal. E como tal, fui servente, fui arrasta – que é o indivíduo que espalha o peixe e arruma o peixe e depois entrega aos compradores – depois fui vendedor de 2ª, de 3ª e de 1ª, e nos últimos 20 anos fui o responsável pela lota.

O trabalho no mar era o caminho lógico naquele tempo, mas no seu caso não foi assim

Era, era.

Eu tinha um tio que é muito badalado na Ericeira, “o funcho”, Joaquim Lopes (Duarte), que tinha a 2ª classe e foi contramestre. Ele andou sempre a desafiar-me para ir para o mar, não para o mar daqui, mas eu nunca fui. Até me quis oferecer um estojo de pesca, mas eu não quis e ele até se sentia ofendido por isso.

…Mais tarde, já estava eu no Morais, conhecia ali muita gente, ao Morais ia toda a gente, ia o bêbado pintor e o pintor bêbado. Os intelectuais de janela iam todos para o Xico, o Silva Cunha, o Casal Ribeiro e essa malta toda da elite da época ia para lá. Alguns também vinham para cá (Morais) mas a maioria não…

Fui a Lisboa falar com um tal comandante Miranda Gomes que era um cliente do Morais. Era comandante de terra de uma companhia do bacalhau. Ele andava sempre a desafiar-me para ir para lá como empregado, mas eu sempre lhe respondi que “a água é muita e eu não a consigo beber toda de uma vez”. Quando ele me apanha lá dentro do escritório, diz logo “hoje é que é, você fica cá a trabalhar” eu respondi-lhe que não ficava lá.

Nunca tive tendência para ir para ao mar. Fui duas vezes à pesca de barco com um amigo e achei aquilo muito mole para mim, aquilo é altamente nostálgico para mim. Depois fui à pesca de terra, nunca tive artefactos nem nada, mas ia com outros amigos, estava-se ali uma tarde ou uma noite inteira, e esquece. Depois fui a caça com um individuo que já morreu, fomos daqui de carro até São Julião com um furão, para caçar coelhos, o gajo apanhou dois coelhos e ficou todo entusiasmado…Não tenho habilidade nem para a pesca nem para a caça, e não tenho uma ferramenta em casa, a minha mulher tem, mas eu tenho habilidade é para outras coisas, penso eu.

Como é que alguém com a 4ª classe tem uma linguagem e uma forma de ver as coisas como o Júlio?

Isso tem duas razões.

Logo no meu primeiro emprego, com o tal Pedro Zé Pereira que era chefe da padaria, conhecido pelo Pedro da Padaria, ele era um homem austero, mas simpatiquíssimo, e também era músico. Era um homem muito disciplinador. Se me dizia “ó Júlio quero isto aqui porque venho trabalhar de noite e quero saber onde é que está” e se eu não o fizesse, ele ia a minha casa, às 3 da manhã que fosse, e perguntava “ó Júlio, onde é que está a raspadeira que eu não a vejo?” E eu lá tinha de ir com ele e às 6 da manhã tinha de regressar à padaria. Ele, uma vez disse uma frase muito engraçada, tinha eu 13 anos e estava habituado a ver os homens das obras e os pintores a fazerem horas para entrar ao serviço, e por isso estava a fazer o mesmo. Ele passa e pergunta-me o que estava ali a fazer, respondi-lhe que estava a espera de serem horas para entrar. “Para entrar? E porque não entras já?” pergunta ele. Respondi-lhe que ia entrar à hora e ele diz-me, “isto não é nenhuma obra, nas obras é que é para tentar descansar, aqui não. Mais café menos café” e aquilo entrou-me na cabeça.

Por outro lado, a minha vida foi de algum modo formatada pela minha avó, que era uma senhora espectacular. Quando eu nasci, a minha mãe tinha 20 anos. Quando ela me queria castigar por alguma malandrice que eu tinha feito, porque também as fiz, a minha avó dizia logo “ó Maria, tu tens comida para dar ao rapaz? Não? Então não lhe batas e manda-o para a cama”.
Eu fui orientado pela minha avó, mais tarde pelo Pedro Zé Pereira e mais tarde ainda, pelo Sr. Orlando Morais. E pelo Orlando Morais porquê, porque no café do Orlando Morais havia muita gente de Pêro Pinheiro, de Lisboa, de varias profissões e eu sempre fui muito curioso. Curioso ao ponto de questionar os pilotos da TAP que lá iam, por exemplo, o Mira Godinho que levou o Spínola para o Brasil, eu fazia-lhe muitas perguntas, tinha curiosidade.

…O meu turno no Morais era do meio da sala para a porta, havia clientes que esperavam, com lugares do outro lado, mas esperavam por um lugar no meu turno. As senhoras, no fim do verão, já estava mau tempo, e elas estavam a fazer malha e eu dizia-lhes, “é uma camisola cá para o Je?”. Elas não me faziam a camisola mas compravam, e ao fim do dia havia uma camisola à maneira, cá para “o Je”…

Eu só a partir dos 13 anos é que comecei a navegar sozinho. Foi no dia em que fui tirar o bilhete de identidade a Mafra. A minha mãe foi comigo e eu disse-lhe, “a partir de hoje não vem comigo a mais lado nenhum, a partir de hoje sou eu é que remo”. E comecei a remar. A minha avó deu-me sempre muita autoridade e facilidade nesse sentido. E eu é que mandava nos meus irmãos, quase que mandava na minha mãe e a minha avó disse-me, “o caminho é este”.

Por isso a minha formação, na questão do falar tem a ver com isto.

Eu fiz um curso de cristandade e reunia em Mafra ou na Ericeira com o Dr. Mendonça, que era o conservador de Mafra, com o Coronel Vaz Antunes, e com o Caixote Rosa e as esposas, eu era o único fora daquele baralho. Mas havia uma condição, não se utilizava ali palavras de “sete e quinhentos”, que eu quero perceber o que os senhores dizem. Então eles utilizavam uma linguagem que eu entendia, discutia e falava com eles.

Também fiz parte da Conferências de são Vicente de Paulo, na altura em que estava mais relacionado com a igreja, estava lá há pouco tempo e fui logo para presidente. Até tenho um episódio caricato aí passado. Eu comecei a entrar dentro daquela formalidade e no esquema de condução dos trabalhos, tinha a confiança das pessoas, e eram todos muito mais velhos que eu. Um dia verifico que aquela malta ia toda, ou quase toda, com o emblema do PSD, isto em 75, ou por aí. Eu, na reunião a seguir levei o “chapão” do 1º congresso do PS, ao qual eu não tinha ido, mas tinham-me oferecido aquilo. Quando entrei, houve um que disse logo assim para mim “ouve lá, trazes ai um emblema de um partido, isto aqui não há emblemas de partidos”.  Eu já tinha percebido ao longo dos dias o que é que eles queriam, entreguei a papelada toda e vim-me embora.

[Na transcrição da entrevista, optámos por uma revisão mínima, mantendo na escrita, nas medida do possível, o linguajar e o tom do entrevistado]

Amanhã publicaremos a segunda parte da entrevista. Os pescadores da Ericeira, a pesca, o surf e os turistas.

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