Crónica | Alexandre Honrado – LEIA. Ou passe adiante.

Participei na semana passada em seminários e debates – três, para ser exato, profícuos, de força prolífera e muito cansativos, como todos os outros – dos quais saí com algumas convicções reforçadas.

Em primeiro lugar que devemos estabelecer cumplicidades com a incompreensão. A ideia estonteante e muito enganadora de que compreendemos o que nos rodeia – e no que nos rodeia há o tangível e o intangível, o tridimensional e o abstrato, o bidimensional e o invisível, só para encher a linha com algumas das diferenças – é falaciosa.

É na compreensão – e dela – que podemos fazer emergir pensamento autónomo mas, sim, admito, pensar é muito pesado e é uma coisa exigente que temos de treinar.

Em segundo lugar, percebi parte do que me falta perceber. Que os temas antropológicos e filosóficos de hoje são diferentes do passado, mas que há muita convergência naquilo que tememos. É por isso que, para lá da antropologia, da filosofia e da sociologia, procuro metodologias próprias no âmbito dos Estudos Culturais, para perseguir matrizes cromáticos que sustentem de modo atraente as estruturas interpretativas de que careço.

Num dos painéis, quantificado pelas regras do pensamento, em que participei, gente de orientações religiosas diferentes – e de orientação religiosa nenhuma, sublinhe-se – estabeleciam como evidência que a ideia da paz era a sua prioridade e que as religiões são modelos constitutivos de harmonias e de proximidades, mais do que de conflitos e concorrências bélicas.

Da plateia surgiu quase logo o sintoma da incomodidade. Entre muitos, um juízo de valor, apressado, mas no entanto digno de crédito, destacou-se: ouvindo aqueles que aqui vieram fazer-se ouvir, parece então que o mundo nas suas diferenças está cheio de bons rapazes, de excelente coração e melhor prática na construção do mundo.

Admito que, dentro do que nos era dado sentir, naquele momento,  o desejo da concórdia era muito superior ao do conflito. Mas assim como não há um padrão para a cultura contemporânea – e a cultura pode sempre ser boa ou má, de acordo com protagonistas e intérpretes -, também parece inexistente um padrão para o sentimento, para o pensar – e para a ação.

Finalmente, discutiu-se nesses debates o papel da religião nos nossos dias, atribuindo-lhe causas e efeitos, esquecendo-nos todavia de discutir um elemento muito mais audaz, imprevisível, bondoso e maléfico, fascinante e repugnante na sua ação dos tempos mais remotos à atualidade: o ser humano.

Há quem confunda o processo de secularização – processo através do qual a religião perde a sua influência sobre as variadas esferas da vida social – como uma certeza dos últimos duzentos anos. É um erro. Como é um erro pensar que esse processo é unívoco ou mono-religioso, já que se aplica a confissões e estruturas de crença variadas e algumas aparecem-nos hoje com uma intensidade e protagonismos inesperados.

Entre os século XI e XV, houve uma organização sociológica que se sublimou: a Cristandade, concretização social do Cristianismo. Mas no século XVI, o Cristianismo abandonou a cosmovisão medieval, gerando o que chamamos Modernismo, identificado na emergência da Igreja Católica e na afirmação do Protestantismo, construído a partir do pensamento crítico nuclear de Martinho Lutero.

Nascia assim a Modernidade – que teve apogeu e queda, como todos os tempos da construção humana. Hoje, a contemporaneidade, assalta-se de novas dúvidas – que julgamos muito maiores do que as do passado, e todavia, não o são.

A história é o somatório de esgotamentos. Nos nossos dias percebemos que se esgota um modelo, como antes o feudalismo se esgotou. Insisti nesses debates em duas teclas: a necessidade do encantatório para um mundo desiludido; e o atrevimento de aplicar novas grelhas de análise ao que fazemos, sentimos e pensamos, de modo a descobrir saídas. Chamo a isso a Filosofia do Impuro, é verdade.

O conhecimento empírico obtinha-se pela experiência, explicavam-nos os filósofos do passado. E o conhecimento puro, não previa a modificação do sujeito pela não presença do objeto na experiência. Realizava-se no puro plano do pensar, nas instâncias do Entendimento (Conceitos Puros) ou da Razão (Ideias Puras). Filósofos como Kant gostavam disso.

Somos, todavia, de um tempo de Não Entendimento e sobretudo de Equívocos da Razão. Não entendemos; ninguém tem razão. Andamos a perder a liberdade e a perder, com isso, a hipótese de construir a equidade.

É desse impuro que nos arrasta que sairá o que nos espera?

 

Alexandre Honrado

Historiador

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