Crónica de Alexandre Honrado | A ordem é sempre estranha

A ordem é sempre estranha

Sentado a uma mesa, com uma tarefa preciosa: pensar.

Se alguém tivesse lido Virgílio Ferreira, notaria a contradição.

Há uma diferença em que se insere a interminável discussão entre os sistemas do pensar – e a indiscutibilidade daquele que é o nosso (sim, o nosso pensar, o nosso pensamento, o eu imperfeito que nos move).  Por isso, trocarei o verbo PENSAR pelo substantivo masculino alheamento. Isso! Isso mesmo!

Reformulo.

Estava eu a executar uma tarefa preciosa: a alhear-me.

Repare-se que é na abstração que se cria alguma coisa e nunca na substancialização. Os “cabeças no ar” são oviamente  mais permeáveis à criativade. Podemos recriá-la em nós, ou recusá-la. A criatividade. O mesmo é legítimo dizer da abstração.

Distraí-me.

Entrava um fio de sol pela janela, tipo um bico de cegonha iluminado.         E nesse cone de luz pairavam milhões de partículas inquietas, como se o pó fosse a mais pequena parte do visível – e para lá dele existisse tudo o que não vemos.

Dessa dança acrobática de partículas e do meu pensamento desalinhado, dessa saborosíssima desordem, nasceu este texto. O título antecede-o como um ponto colorido num teste de gravidez: olhem! É positivo!

A ordem é sempre estranha. Ao passo que a desordem, acrescento agora, é o que nos traz de cá para lá e nos devolve aos pontos de origem, em inesperados acontecimentos que monitorizam o que somos, o que não somos, o que deixámos (de) ou nunca conseguimos ser. A desordem é o que se entranha, mesmo sem saber.

Estrategas da guerra, geógrafos, cientistas exatos, outros tantos como esses, exigem a ordem. Também os ditadores. Ou os seres pequeninos que gostam da ditadura e que reclamam a ordem como se fosse a teta do leite excecional, capaz de fazer dos homens vitelos e dos vitelos carteiras de pele para quem distribui a ordem, raciona o leite, e abate os vitelos ordenadamente.

Não há mistério no movimento daquelas partículas em suspensão, em movimento browniano ou pedesis – que é afinal o movimento aleatório das partículas suspensas num fluido (líquido ou gás), resultante da sua colisão com átomos rápidos ou moléculas no gás ou líquido.

Poderá haver mistério na forma como entendemos o fenómeno, começando até por chamar-lhe fenómeno e aceitando o que conterá de maior ou de menor prodígio?

Ao ter decidido estudar cultura, de há uns anos para cá, não encontro limites ao objeto de estudo. Porque não há, realmente, limites ao objeto de estudo. A cultura é toda a invenção sentimental, do arado e da charrua à bomba nuclear, da escrita e da literatura à música e à contemplação espiritual, essa mesma que reclama o mais profundo silêncio, da pintura, da escultura, da partitura, às construções morais e da justiça e da ordenação e desordenação dos povos. Não escapa da lista o que inventamos de económico, de tecnológico, de científico. Do labor ao ócio.

Sentado a uma mesa, preguiço. Meço a estranheza da ordem na minha mente desordenada, no desassossego das páginas espalhadas à minha volta.

Um bando de papagaios, desses que ocupam, de há uns anos para cá, os céus de Lisboa – com penas de um verde alegremente intenso e um vivíssimo colar vermelho no pescoço, como pequenas bandeiras da nossa República hasteada – passa a gritar com uma desordenada felicidade que torna inexplicável todas as ameças – e todavia elas exigem de nós todas as apreensões, pois são tentativas de ordem, ameaças cobardes à nossa capacidade de esquecer de vez a ordem que nos tolhe.

 

Alexandre Honrado
Historiador

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