Crónica | Alexandre Honrado – A prenda de pensar

A PRENDA DE PENSAR

 

Devia falar de Marcelo que nunca governou nada ou de Cristas que criou a situação que agora a sobressalta quando tinha a pasta das florestas e quejandos a seu cargo, devia louvar a Ministra que tem dado a emoção por nós e que merecia melhor sorte ou perguntar olhos nos olhos a quem ateia os fogos quem é que lhe está a pagar, pois para que fins já o sabemos, nem adianta a formulação da pergunta.

Mantenho, todavia, a lágrima segura, e não quero entrar na contenda, pelo menos aqui que não é local para acareações.

Sei que por vezes eriço umas peles e faço ranger uns dentes, mas isso é coisa sem importância.

Andava há um texto atrás a pensar sobre o ato do pensar. E quero concluir o raciocínio, já que aquilo que vivemos por estes dias parece ter-nos retirado essa capacidade tão intensa.

Ao texto da semana passada acrescento o que na altura ia dizer, mas achei demasiado. Era assim:
o ato de nascer é uma impureza. No momento inicial, somos seres muito próximos da natureza, é certo, pelo que nenhum ato cultural nos pode ser exigido como atividade consciente.

A idealização da inocência é contrariada pela veracidade da agressão. Batem-nos para que choremos. As secundinas, pasta inexplicável para o leigo, composta de placenta e de membranas expelidas connosco ao nascer, dão-nos a aparência suja da matéria impura.

O meio relativiza-nos. Entre a clínica luxuosa ou a enxerga mais pobre, não fica qualquer nivelação. Seremos mais tarde qualquer coisa. É claro que todos nascemos vindos de processos idênticos, o momento da fecundação, e ao morrermos seremos em (des)fragmentação a matéria prima do que possa de nós sobreviver.

O ciclo cumpre-se e não deixa de ser animador. Mas está longe da essência do pensamento que virá mais tarde.

O ato da sobrevivência é imediato: procuramos habituar-nos à luz, ao ar, deixamos um meio aquoso para entrar num meio aéreo, ou impelido pelo ar, e então temos todas as sensibilidades, frio e calor, sede e desconforto, esbracejamos e nada nos segura, há espaço onde outrora uma caverna bem aclimatada nos garantia a ilusão de uma pacífica continuidade.

Nascer é um novo empreendimento, uma nova travessia, um não pensamento à espera de quimeras.

Há quem grite, anos depois, que se soubesse o que iria passar nunca teria nascido – como se essa escolha fosse sua ou voluntária.

Se procuramos um sentido para a vida, isso é coisa posterior, vem muito depois. Naquele instante sabia-nos bem mais um gole de líquido amniótico e sobretudo que tudo voltasse a ser o que era pouco antes de nos violentarem com a nova etapa. Mais do que isso, nada!

Sabem que mais? Está a chover, e não é metáfora.

Alexandre Honrado
Historiador

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