Crónica | Alexandre Honrado – Interpreta o impensável

Interpreta o impensável

 

 

O que seria de uma vida inteira se não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós.

Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma do que mais se evidencia no que acumulamos, qualquer coisa, mesmo simples, teria de fazer algum sentido.

Não tendo memórias não temos visões nem alucinações. Ou ambições. E desprovidos dessas transcendências não temos importância diante de nós. Aquele nada que se movimenta no reflexo do espelho é este nada que se movimenta sem saber o que é um espelho, ou o movimento, um reflexo, um corpo, um fato completo, uma maquilhagem, um esgar.

Não há angústia mais cavada do que essa: perdermos a importância diante de nós mesmos.

Uma das doenças do nosso século é o Alzheimer, um dos tipos de Demência. As pessoas com Doença de Alzheimer tornam-se confusas e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmas quando colocadas frente a um espelho. Mas para que assim seja, não teremos de pensar o que é angústia (com ou sem enquadramento clínico) e construir em redor alguma coisa sólida, mesmo intangível, capaz de identificar o que nos perturba? Sem essa percepção, consciência ou pensamento, não há sequer lugar ao reconhecimento. Não se poderá falar de angústia. Não há corpo, nem espelho.

Houve um tempo, não muito distante deste, o de agora, em que, pelo menos aparentemente, vivíamos rodeados de pensamento. Tínhamos connosco e citávamos ideólogos que sentíamos como nossos; nutríamos paixões, até insanas, quando nos cruzávamos com os filósofos. Enchíamos a boca (e os ouvidos) nas tertúlias e referíamos, de um modo muito aceso, entre muitos outros, Platão, Nietzsche, Marx, Jaspers, Beauvoir, Arendt, Sartre, Deleuze, Benjamin ou Foucault como parentes nossos muito próximos. Não seria talvez um tempo em que pensávamos muito; aceite-se com leveza que era apenas um tempo em que o pensamento nos rodeava, como o andorinhão o faz ao beiral em altura certa. Ele lá sabe que a primavera o acolherá e não tem calendário ou professor que lhe fale de fenomenologia, sabe lá ele o que é isso, aliás coisa preocupante, dos fenómenos da consciência e das coisas aderentes a essa, dominando, talvez paradoxalmente, a intuição pura.

Um andorinhão intui. O homem pensa. Ou será o contrário, neste tempo, o de agora, em que nos inquietamos tanto e, paradoxo!, nos aquietamos demasiado.

É um risco trazer nomes para um local onde o pensamento se quer resistente, acima de qualquer protagonista. Mas é irresistível. Por exemplo, Heidegger e Deleuze. Não importa nem biografá-los nem fazer-lhes a louvação. Limitemo-nos a explicar porque os requisitamos: não sendo parecidos no modo como pensam, ambos nos advertem de um problema impensável: nós não pensamos, asseguram. Heidegger diz que não aprendemos ainda a pensar; Deleuze diz que não pensamos ainda. Carregamos essa herança, a cobrar mais tarde: há um futuro para o pensamento. Pensar não é nem um fio estendido entre um sujeito e um objeto, nem a revolução de um em torno do outro.  É o que diz Deleuze. E Heidegger riposta: ainda não aprendemos a pensar. O pensamento permanecerá em nós uma possibilidade não realizada enquanto não se der por tarefa o que eminentemente dá que pensar. Sócrates, o filósofo grego, pensou. Não deixou um único pensamento escrito, mas herdeiros que lhos atribuíram. Recorreu ao que havia de mais abstrato no processo de pensar. E juntou-lhe alegorias. E o efeito surpresa, vindo da mais profunda reflexão. Estamos convencidos de que Sócrates, o filósofo, terá pensado. Ou, depois dele, que alguém tenha pensado que ele pensou. E até que de modo entusiasmado se tenha posto a pensar por ele. Frases como Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância, são-lhe atribuídas. Pode ser um bom pensamento. Mas pensar é muito difícil, mesmo arriscado. E interpretar quem pensa ou os seus pensamentos, uma tarefa para audazes.

Os alquimistas julgavam – julgam? – que a Alquimia ajuda a eliminar o supérfluo e a transmutar o impuro, através de energias específicas.

Os tempos atuais são impuros. Nada parece ser o elemento essencial nem a sua aproximação. Os pensamentos, admitindo-os, são impurezas.

Porque não sugerir uma filosofia do impuro, na pista de uma interpretação que possa levar a, pelo menos uma, forma de pensar?

 

Alexandre Honrado

Historiador

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