MESMO | Promoção da Saúde Mental

Saúde Mental e Ocupacional | Susana Alves e Maria João Avelino

 

Promoção da Saúde Mental

A propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, que se celebra a 10 de Outubro, relembra-se que a doença mental atinge um em cada quatro cidadãos, com um impacto significativo sobre os sistemas social, educativo,  económico, penal e judicial.

Em contrapartida, a saúde mental permite a realização intelectual, emocional, laboral e social do indivíduo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde mental define-se como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere”.

Embora relacionadas, a doença mental e a saúde mental não são necessariamente opostas, isto é, algumas pessoas podem não ter saúde mental e não ter também nenhuma doença mental. No entanto, quem não tem saúde mental tem um risco maior de vir a ter doença mental, por exemplo, doenças com sintomas de ansiedade ou com sintomas depressivos.

A saúde mental de cada indivíduo é determinada por uma multiplicidade de factores, alguns que não podem ser modificados (por exemplo, a genética e o sexo) e outros que podem (por exemplo, os estilos de vida). Estes últimos são modificáveis através de algumas estratégias que aliviam o stress individual e que promovem a sensação de bem estar. As acções que, até agora, demonstraram maior eficácia nos vários estudos que têm vindo a ser realizados consistem em:

  • Cultivar as relações pessoais e sociais.

Passar tempo de qualidade com a família, os amigos, colegas ou vizinhos, fazer parte de clubes sociais locais, participar em actividades na comunidade, estabelecer e manter redes de apoio sociais, são acções que contribuem para um sentimento de pertença, de coesão e de suporte, diminuindo o isolamento e a alienação social. Além disso, reduzem o risco de demência, de mortalidade global e de várias doenças físicas.

Manter actividade física

Manter uma actividade física regular, como por exemplo, ir a pé para o trabalho, fazer caminhadas, correr, andar de bicicleta, nadar, dançar, jogar, etc, contribui para reduzir os sintomas depressivos e de ansiedade, melhora o sono, a memória e a capacidade de raciocínio, a autoimagem e a autoestima.

Manter uma alimentação equilibrada

Uma alimentação equilibrada, variada, rica em vegetais e fruta, com poucos açúcares e pouca comida processada/rápida, contribui para um melhor controlo do peso e para o bem estar psicológico.

􏰀- Respeitar as horas de sono

A privação de sono está associada a cansaço, a diminuição do funcionamento social e da qualidade de vida, e a sintomas depressivos e de ansiedade, além de aumentar o risco de várias doenças físicas.

  • Tratar as doenças físicas

A saúde mental e a saúde física estão intimamente relacionadas e dependem uma da outra. Por exemplo, o tratamento eficaz da hipertensão e da Diabetes mellitus pode reduzir o risco de demência;  o tratamento da dor e das doenças cardíacas, renais ou pulmonares crónicas, diminui os sintomas depressivos associados a essas doenças.

Evitar o tabaco, o álcool e outras drogas psicoactivas

O consumo de drogas constitui um factor de risco e pode também ser consequência de problemas de saúde mental. O tabaco e o álcool, além do impacto na saúde física e na mortalidade, aumentam o risco de depressão e de ansiedade. O consumo elevado de canabinóides, sobretudo na adolescência, está associado ao aumento de risco de esquizofrenia.

  • Cultivar a curiosidade e a criatividade e continuar a aprender

Procurar actividades artísticas, aprender a tocar um instrumento, descobrir música nova, aprender uma receita nova, consertar um objecto danificado, visitar locais novos, estar atento e apreciar o meio e o contexto, propiciam um sentimento de competência, de relaxamento e de bem estar e ajudam a construir e a manter uma rede social e comunitária mais rica, desviando o foco de atenção das preocupações.

– Investir na escolaridade

Aumentar o nível de escolaridade, aprender uma língua nova, fazer um curso valorizado profissionalmente, melhoram a capacidade individual, o sentimento de realização e de satisfação pessoal e social, e facilitam a empregabilidade.

– Estar em contacto com a Natureza

Frequentar os jardins e parques verdes ou praias, em detrimento dos ambientes urbanizados e mais poluídos, melhora também os sintomas de ansiedade e depressivos.

– Ser amável e generoso

Fazer algo por um familiar, amigo, vizinho ou alguém que precise de ajude, sorrir e agradecer, oferecer tempo em programas comunitários, de voluntariado ou de solidariedade, que são baseados em valores como o altruísmo, aumentam a autoestima, os laços sociais, a consciência comunitária e podem dar um significado e sentido ao quotidiano e à vida.

– Cuidar das crianças e dos idosos

Cuidar das crianças, uma vez que os primeiros anos de vida são determinantes para a saúde mental, e cuidar dos idosos, preservando a sua dignidade, quer em casa, quer nos lares.

– Ser tolerante com grupos marginalizados, incluindo os doentes mentais

Respeitar a dignidade das minorias étnicas, das pessoas de culturas diferentes, das pessoas doentes ou diminuídas mentalmente, tratar as pessoas da mesma forma independentemente da origem, cultura ou orientação, contribui para reduzir a estigmatização e a discriminação, que são factores de risco importantes para doença mental.

  • Respeitar ou cultivar a espiritualidade

A religião e a espiritualidade constituem um domínio importante da vida de algumas pessoas e podem ajudar a lidar com acontecimentos de vida geradores de stress e a aumentar o bem estar, a auto-estima e o sentimento de controlo, podendo diminuir os sintomas de depressão.

 

Em síntese, a boa qualidade das relações pessoais, sociais e comunitárias, a melhoria da saúde física, os estilo de vida saudáveis, tal como nas restantes áreas da saúde, são uma via para uma vida mais funcional, com mais qualidade e bem estar, que é o caracteriza a saúde mental e previne a doença mental.

 

Susana Raposo Alves
Médica Interna de Psiquiatra do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa

 

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