Crónica | Alexandre Honrado – À procura de vozes encantatórias

À procura de vozes encantatórias

Escondido das ribaltas, mesmo com o lançamento de um livro novo – “meu”, em São Paulo, ou nosso, porque feito com a escritora brasileira Penélope Martins e a artista plástica espanhola  Nivola Uyá– , um ano letivo à porta onde a área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona se mostra de uma dinâmica imparável, com a aceitação do convite da presidência da República para participar na feira do livro de Belém – que considero uma bela iniciativa, República é Educação, quem o negar que aprenda-, com uma vida social que se limita a viagens, dois seminários e, pelo meio, um momento memorável em que numa plateia me encantei com Adriano Moreira, e a sua sugestão de que precisamos no mundo de vozes encantatórias capazes de nos levarem para outros destinos, saio das Bibliotecas para olhar para um ecrã de televisão onde António Guterres estremece ao puxar as orelhas dos burros deste mundo, onde um burro deste mundo, Donald Trump agita as orelhas e abana o rabo tentando afastar porcaria e moscas, e onde a porcaria se alastra, salta em bombarda fatal da triste Coreia do Norte – eu que tenho um livro publicado na Coreia do sul até tenho boas recordações daquela zona do mundo – e resolvo arranjar tempo para escrever estas linhas.

Quando era jovem encantei-me com uns jogos de computador, que miraculosamente passavam por uma cassete até estabelecerem num ecrã, usando o velho ZX Spectrum. Depois, mais exigente, o encanto passou para os Atari e a coisa nunca parou de crescer. Nalguns desses jogos, simulavam-se ataques aéreos, mais ou menos brutais – e o desencanto que me invadia era enorme. Para quê simular a morte alheia, se a vida é tão difícil de manter, até em níveis pouco mais de razoáveis, em tantas partes do mundo? Agora, ao olhar para a televisão, o divertimento era norte-americano. Quatro caças F-35B e dois bombardeiros B-1B dos Estados Unidos a realizarem a simulação de um bombardeamento sobre a Península da Coreia, na sequência do disparo, esse real, de um míssil balístico de Pyongyang.
No exercício aéreo participaram também quatro caças sul-coreanos F-15K, de acordo com a agência de notícias Ynohap que cita fontes do governo de Seul.

Nas minhas aulas, e num centro de estudos que coordeno – o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos do Humanismo e de Reflexão para a Paz (integrado na área de Ciência das Religiões – aprofundamos como rotinas e dinâmicas o lado mais bárbaro do planeta, sempre com a meta de aprofundar as soluções para a criação de um mundo melhor. Isto faz-me pensar que sou condicionado pelas utopias. Pela criação de não-lugares que podemos ocupar com alternativas construtoras – que produzam livros, ideias, coisas públicas culturais, vozes encantatórias que conduzam ao encanto de novos destinos.

Parei só para dizer isto. Vou voltar par ao meu esconderijo. Espero que, à saída, o mundo ainda exista, que seja um local melhor ou que, pelo menos, os jogos de computador não se tenham fundido com a mais crua realidade.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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