Crónica | Alexandre Honrado – A esperteza saloia

A esperteza saloia

Sou boa pessoa, digo eu, como cesta que se gaba de não ir às próximas vindimas. Creio que o sou – e isso mesmo sem atacar com raiva primária o Acordo Ortográfico 90 ou os programas indecorosos das televisões nacionais, ou os erros jornalísticos de gramática ou a falta de senso de quem devia atinar para bem de todos nós. É por isso que, agindo na base dos meus sentimentos mais profundos, tenho muita pena de certas pessoas. Só para dar um exemplo, tenho até uma certa pena de Pedro Passos Coelho, não só pela sua convulsa biografia, ainda no destaque que lhe dão nas passagens de uma vida privada que vem eleitoralmente, perdão, amiudada e talvez abusivamente a capas de revistas e jornais – vida que deve ser muito pesada e sufocante para si e para os seus, somada ainda à terrível carga negativa dos amigos que teve e tem e que não são boas companhias, Cavaco, Duarte Lima, Isaltino, Dias Loureiro, Miguel Relvas, Oliveira Costa e outros de que conhecemos crónica e ação com vistos Gold à mistura e textos prontos a citar das páginas do Facebook e lá vai disto.

PP! Isto é: pobre Pedro. Nesta minha piedade, tenho agora que acrescentar uma outra, pois é confrangedor o que se passou, e resumo já: escrevo do meu espanto de lhe ouvir dizer a expressão “esperteza saloia”, jogada aos ventos como quase insulto.

Ai ai, Pedro, Pedro. Mal os seus militantes de base o arredem desse lugar que desmerece, e que outros no passado mais longínquo dignificaram, espero que arranje tempo para a desintoxicação, para a reabilitação, para a cura.

O jornal literário “O Panorama”, que podemos conhecer e ler na hemeroteca digital, sem sair de casa, escreve no século passado “que se designa como saloio o habitante natural das zonas rurais do início do século XX em volta de Lisboa, a região saloia”. E a região saloia compreende vários concelhos, sendo os seus limites discutíveis. Alguns autores definem como região saloia os concelhos de Alenquer, Amadora, Arruda dos Vinhos, Cadaval, Loures, Mafra, Odivelas, Sintra, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. Não me parece que inclua Massamá. Mas apontando Mafra e os seus brios, eis a defesa: não há nada de menor em ser-se saloio, a começar que diante do que Portugal viveu nesse século passado e no anterior, que incluiu invasões, deslocação do poder central para o Brasil, Revoluções, guerra civil, atentados, terrorismo, regicídio, e vasta decadência-demência política, o saloio foi, a ver bem a História, um heróico resistente. ( O saloio “vivia da agricultura, praticada em hortas e pomares, e do comércio de produtos agrícolas em mercados e na cidade de Lisboa” – também vendiam coelho, ao que parece. “As mulheres ganhavam mais algum dinheiro como lavadeiras das famílias abastadas de Lisboa”).

A bem da verdade refira-se que “Çalaio” ou “çaloio” era o tributo que se pagava do pão cozido na corte e Patriarcado de Lisboa. Çaloio era também o nome que se dava aos mouros da seita “çalá” e no começo da nacionalidade era o nome que se dava aos descendentes dos provençais colonos oriundos de Salles d’Ande, terra famosa pelos seus moinhos. Reparem como o pão de Mafra e o pão saloio são ainda hoje tesouros nacionais!

As novas gerações “saloias” não se distinguem de quaisquer outras, tão atualizadas e integradas estão na paisagem do País. Talvez um ou outro político em demanda de roupa suja queira descobrir a sua utopia, a sua xangri-la, a sua aldeia da roupa branca. Mas o melhor é ir, nesse caso, chamar saloio a outro.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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