Crónica de Alexandre Honrado | Um homem sem calças

Um homem sem calças
Passeando pela brisa da tarde

 

Pois é verdade, eu que leio tudo, desinteresso-me também, cada vez mais, pela opinião publicada, pela galeria de horrores expostos nas capas das revistas e dos jornais. Creio que me cansei há muito tempo e não dei por isso. Cheguei, no passado, a ter a sensação provocada pela adrenalina de ver matérias escritas por mim irem à capa e agora sou este senhor entusiasmado que segue o voo das aves, que mergulha à procura de pedras reluzentes no fundo de mares pouco profundos, que tira fotos por prazer e que faz filmes por deleite e que  em férias escreve mais de 200 páginas num mês, só porque sim.
Nos meus passeios, acabo de comprar mais uns livros – antigos, uns, deles o mais intenso de 1917, coisa arrepiante de propaganda: Um Ano de Ditadura Discursos e Alocuções de Sidónio Pais, com uma ilustração de Martins Barata onde o ditador aparece de bigode revirado e aquele ar que levava à certa os corações das senhoras mais impressionáveis.
Numa montra qualquer, durante o mesmo passeio ainda espreito os jornais, as revistas, os pasquins – palavra que já não se usa, mas que era tão airosa (devia dizer catita?).
Regressada de férias, uma amiga, funcionária de uma das editoras que me publica, pergunta-me, depois de dizer que voltou “à realidade”, como estou. Só sei responder que, felizmente, nunca voltarei à realidade, afinal sei disso desde menino, não é um trunfo, é um destino.
Na montra aludida, uma das piores imagens que, creio, ainda me perseguirá em pesadelos um destes dias próximos, choca comigo de frente, como a barata voadora no para-choques da viatura em marcha: Francisco Pinto Balsemão de camisa e peúgas, sem calças, na capa de um jornal.
Não me interesso por saber como chegou àquele estado, penso secretamente no meu ex-patrão e que muitos como eu um dia destes, muito próximo, pensarão mais ou menos secretamente nele como o ex-patrão, vingados todavia pela capa do jornal. Em cuecas e camisa, de peúgas e ar atontalhado, ninguém devia vir à capa, creio eu.    Prefiro o desenho de Martins Barata e a certeza de que alguns ditadores não voltam.
Passo a correr os olhos pelos títulos que concorrem com o senhor em peúgas, e são dramáticos: o e-mail da criancinha que destruiu um coração, os corações de um casal que pararam ao mesmo tempo, o retrato de família do craque que faz filhos a torto e a direito, ainda ninguém percebeu bem porquês, talvez para quê, isso talvez, mas o mundo é um local misterioso, aonde tenho de deslocar-me se quiser pão fresco e livros novos com mais de cem anos.
O senhor que vende as revistas e os jornais e onde compro uma vez por mês outras revistas, de História, que vêm de Paris como os bebés, aquele a quem por graça chamo o Zé do Quiosque e que algumas pessoas, quando o cito, julgam tratar-se de um pseudónimo meu, disse-me há dias, e volto a citá-lo: “As pessoas, sem calças, parecem outras.”
Para ser franco, não sei se concorde. Vou mergulhar, testando a teoria. Mais logo lerei o que puder, por entre o que escreverei, mesmo que não possa.

Alexandre Honrado
Historiador

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