Crónica de Alice Vieira | A Blusa Verde

25 Ago 2017 | Crónica | Alice Vieira


A Blusa Verde

Alice Vieira

 

Não sou mulher de superstições.
Nunca fui.
Sempre convivi muito bem numa mesa de 13 pessoas, não me afligem gatos pretos atravessando-se no meu caminho nem cabides largados em cima da cama, não me preocupo se abrirem chapéus-de-chuva dentro de casa, não acredito que uma carteira pousada no chão possa afastar o dinheiro dos meus bolsos e, se não passo por debaixo de andaimes, é apenas porque me parece perigoso, desde o dia em que uma placa caiu de um andar, aterrou no meu peito e lá fui eu de charola para o hospital.
Mas desde há muitos anos (e quando digo “muitos” é mesmo “muitos”…) que não transijo num pormenor: nunca me visto de verde.
Não tem a ver com nenhuma superstição daquelas que o povo conhece, nem tem nada a ver—juro!!—com qualquer acto ostensivo de repulsa sportinguista. Sou irremediavelmente benfiquista, todos o sabem, mas bem educada.
Digamos, portanto, que é mania minha.
Mania assente em factos de tempos idos, quando eu era jovem, vivia muito longe da pátria e pensava que todos os amores eram eternos. Quando um dia descobri que não eram, senti-me a pessoa mais infeliz do mundo e, talvez porque me encontrava na cidade mais romântica do mundo, decidi tomar a atitude romântico-heróica de nunca mais na vida me vestir de verde, que era a cor da saia que eu levava nessa manhã de despedidas.
(Vá, podem rir à vontade que eu espero.)
Eu sei que já se passaram 50 anos desde esse dia, e que outros amores eternos entretanto avançaram, e encheram o meu coração. Mas a verdade é que nunca mais me vesti de verde.
Nunca mais.
Já fiz uma ou outra tentativa, caramba!, não nos podemos deixar levar por palermices da pré-história da nossa vida, e ainda experimentei um lenço timidamente às riscas verdes e brancas (oferecido no Brasil, num congresso de que já nem me recordo), uma t-shirt com uma barra verde nas costas, uma coisa assim .Acabei sempre por desistir. Sentia-me mal, nada daquilo tinha a ver comigo.
Nunca conseguia explicar porquê, mas era assim como se me sentisse a cometer uma traição, e com certeza que os deuses me iriam castigar por isso.
Filhos e amigos, que nunca souberam da história antiga , não entendiam, achavam apenas uma tolice e rematavam sempre:
–Tu nem és de superstições!
Só a minha neta mais velha—a única pessoa da família a quem conto tudo e que por isso sabe tudo da minha vida— é que percebia a razão, embora, entre dois sorrisos me dissesse “ó avó, mas já passaram tantos anos!”
Até que há dias tomei uma atitude verdadeiramente heróica.
Tinha sido convidada para um programa de televisão, e a única recomendação que me tinham feito era “não vista riscas nem bolas”
Foi então que pensei:
— É agora! Nada melhor para acabar de vez com esta tolice.
Vai daí, no próprio dia da emissão (para não me arrepender à última da hora ) entrei no Corte Inglês (desculpem lá a publicidade…) subi por aquelas escadas acima, e vá de mexer em todas as blusas que encontrava para ver se descobria alguma que desse com a saia e me pudesse servir para a ocasião.
Finalmente encontro uma blusa de seda verde, verde mesmo, verde a sério, verde-que-te-quero-verde. Nada de hesitações, pago, peço que tirem todas as etiquetas porque—confesso à empregada, espantada com a minha pressa..—“é para usar já!”
Com ela vestida meti-me num táxi e corri para os estúdios.
Prendem-me um microfone à blusa (verde), e lá me sentam ao lado do jornalista, que está ligado pelo ouvido à régie onde—segundo depreendo—lhe estão a dar alguma ordem de última hora.
Ele diz-me qualquer coisa muito baixinho e eu não ouço, e ele tem de repetir, mas só à terceira vez é que eu o entendo:
–Da régie estão a perguntar se não se importa que a sua blusa vá aparecer azul em vez de verde… É que o cenário atrás de si é verde , e por isso temos de mudar a cor, senão não se distingue nada. Vai aparecer de azul… Não se importa?
E lá apareci no écran. De azul.
E lá enfiei a blusa verde para o fundo mais fundo do guarda-fato , donde só a hei-de tirar daqui a meses para oferecer a alguém como prenda de Natal.
Tenho a certeza de que este foi um aviso dos deuses.
E, pelo sim, pelo não, o melhor é não os provocar.

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